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Camerino Eloy Neto
 

Entre mendigos e vampiros

 

 

 

- Como anda a sua relação com os mendigos e vampiros? 

                                                              ...............

Vampiros só entram nas casas onde foram convidados. Sempre acreditou na máxima propagada pelas histórias sobre os seres que não resistem à luz. Era uma apaixonado pela aura de mistério e sensualidade que envolviam a produção artística das lendas que mostravam o universo de imortalidade, conquistada à base do sangue humano.

Não raro, as narrativas eram recheadas de reflexões existencialistas. A solidão/maldição que durava a eternidade. A dúvida entre matar uma pessoa ou transformá-la em outro ente fadado a sobreviver às custas da vida do semelhante. A difícil escolha ética de quem está numa guerra.

Filosofias à parte, começou a perceber que esse fascínio, que começou no mundo das artes, começava a se materializar em várias situações. E, faminto de desvendar a alma humana como era, passou a fazer parte desse universo. No início, interessante, mas que descambavam para o terreno da dor. Afinal, o mundo dos que não querem a luz traz consequências. É sempre um pouco de vida que se esvai nos encontros com os vampiros.

Durante algum tempo ainda tentou encontrar um pouco de humanidade naquelas situações. Mas se o “homem é o lobo do homem”, quando esse, se transforma em vampiro, toma a decisão de sempre acabar na jugular da sua presa. Ainda que no início existisse o desejo, em alguns casos até que sincero, de alcançar a alma do outro.

O encontro de almas é um momento iluminado, com a presença de Deus. Esse encontro sucumbe ao primeiro sinal de egoísmo, inveja, desejo de ter o que não se trabalhou para ter. Sem a presença divina, vai-se a luz. O vampiro prospera e segue com mais uma vítima no seu currículo cheio de conquistas que só aumentam a sua fome e desespero.

Uma das características dos vampiros é a perda, pouco a pouco, da humanidade. É como se ele trocasse a capacidade de sentir e se relacionar, pela frieza do olhar distante. Se transforma num profundo conhecedor da alma humana, para dela tirar proveito. A força motora é sempre a que subtrai, nunca a que compartilha e acrescenta. 

Mas foi quando ele achou que havia desvendado o mundo dos vampiros que eles se apresentaram de uma forma ainda mais cruel. Disfarçados de mendigos. Aqueles outros seres que aprendemos a ter uma certo carinho, pois são, em último caso, uma possibilidade de estar com Deus. 

Aprendeu que a caridade plena é aquela em que se tira a própria roupa para doar àquele que necessita. “Quem dá ao pobre, empresta a Deus”, era outra máxima em que acreditava. Ou, dito de outro modo, o que se dá de coração na verdade não é nosso, não vai nos faltar, vai acrescentar. É a oportunidade de se tornar instrumento do sagrado. 

                                                          ......................

Por isso, quando ouviu aquela pergunta: Como anda sua relação com os mendigos e vampiros? Foi tomado por uma momento de não resposta. Um silêncio que tentava entender que tipo de indagação era aquela. Vampiros e mendigos colocados lado a lado...

E de repente, foi como se sua cabeça se tivesse aberto para uma coisa que estava ali, à sua frente, mas que, por motivos que a alma deve saber, nunca havia deixado chegar mais próximo. E ainda num momento de confusão mental disse que era muito difícil distinguir um do outro. 

 - Quando uma pessoa é vampiro ou mendigo, se a forma que se apresentavam era muito similar?

- Um não tem nada a ver com outro. O mendigo pede o que precisa. O vampiro tira tudo o quer. Uma relação pode começar como um encontro com um mendigo, que vai pedir, ter, agradecer e partir. Mas se deixarmos que o mendigo se transforme em vampiro, a primeira coisa que vai ter que sair é a presença de luz. Aí, o encontro com o divino, que a caridade exercita, já não existe mais - disse seu interlocutor, e continuou:

- O mendigo vira vampiro sempre que começa a nos sugar, mesmo se mostrando “indefeso”. Nosso desafio é tomar consciência das nossas relações e expulsar o “mendigo” ao primeiro indício que ele se tornou um vampiro.

                                                  ...............

Saiu daquele encontro um pouco ainda atordoado. Mas percebeu que havia conquistado mais um degrau na sua busca do entendimento da alma humana. E se lembrou do enigma da esfinge. “Decifra-me ou devoro-te”. Assim era o caminho da humanidade, uma eterna necessidade de decifrar-se para não correr o risco de se auto-devorar. 

 



Escrito por Camerino às 15h41
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