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Camerino Eloy Neto
 

Estações

 

Vagava dias a fio nas estações a espera do grande milagre. Seu vulto se esgueirava em busca dos lugares mais ermos onde deparava com outros seres que padeciam da mesma dor que ele. Eram encontros fortuitos, sem palavras, desconcertantes.

 

Às vezes até surgia uma certa empatia, mas não lhes era permitido maiores envolvimentos. Não ali, não naquela situação. Na verdade, aqueles breves instantes serviam apenas para que uns sugassem energia dos outros. Sem trocas. O sentimento que a maioria deles nutria pelos semelhantes era de desprezo, beirando o nojo.

 

Ele sabia, e sentia, isso. Mesmo assim, continuava sua odisséia. Reconhecia que em alguns momentos o milagre esteve prestes a acontecer. Nessas ocasiões vislumbrara anjos de asas quebradas. Mas eles estavam sendo possuídos por outros que já haviam caído. Esses últimos estavam sempre naqueles locais, a postos. E não gostavam muito dele.

 

O recorrente viver sem pares o fez acreditar, vez em quando, que o milagre jamais viria. Ele então se lançava, sem medo algum, em busca do mais amargo fim. Mas esse também não vinha, fazendo-o desesperar: será que estava fadado a viver, eternamente, sem uma história completa?

 

Por isso, quando o que restara de sua alma estava mais branda, se deixava levar. Gostava da sensação, ainda que falsa, de participar da vida das pessoas. Fantasiava que estava indo junto com os colegas para o trabalho e participava, ainda que silenciosamente, da conversa deles sobre folgas e desentendimentos com o chefe.

 

Também tinham as famílias – pais e mães levando suas crianças. Ali, imaginava os almoços de domingo, cheios, barulhentos... felizes. Os casais de namorados eram um capítulo á parte. Os acompanhava para além dos olhos, chegando quase a perseguição. Se inquietava com os atrasos, se alegrava ao presenciar os encontros e se angustiava com as brigas e separações.

 

Assim se arrastava pelos vagões. Hora após hora, dia após dia... Inventando uma vida que não tinha, se alimentando do sentimento dos outros. Mentindo compartilhar com a humanidade a solidão que sua condição impunha. Esperando o grande milagre da transcendência.

 

 



Escrito por Camerino às 18h22
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