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Camerino Eloy Neto
 

Princípes desencantados

 

 

- O mundo está cheio de príncipes desencantados – a conclusão veio acompanhada por outra, mais palpável: as cicatrizes, velhas conhecidas de sua alma, agora baixavam ao corpo também.

 

Passou mais uma vez a mão pelo olho. Não havia mais sangue, curativos ou inchaço. Só a marca e a dor. Parecia que a natureza havia cansado de protegê-la e dava-lhe um sinal. Para toda a vida...

 

Uma vida que não acumulava ainda duas décadas, mas que já trazia o cansaço conhecido apenas pelos centenários. Sabia o que a tornava tão velha. A seqüência de noites escuras pelas quais se embrenhara desde os 11 anos.

 

Muito cedo começou a desconhecer as histórias e fotos que falavam de uma menina meiga e feliz. Não sabia quando, onde nem por quem foi ferida mortalmente. Mas a tragédia se instalou nela muito cedo. E ela reagiu do jeito que soube...

 

Ao ser atingida por aquela dor sem explicação só restou-lhe atracar-se com ela e seguir em frente. Não importava o que estava no caminho: flores ou campos minados – na real, não distinguia muito bem a diferença entre os dois – tinha que avançar...

 

E avançou. Procurou, nas madrugadas, algum vestígio de leveza e companheirismo. Gostava, de verdade, dos seres que habitam a noite.  E para igualar-se a eles precisou dissolver a armadura que lhe inflava o peito. O solvente veio em forma de pílulas coloridas...

 

Nas primeiras vezes, bem lá no início quando tinha 11 anos, não importava a quantidade que tomava, lembrava de tudo que acontecia. Segundo a segundo. A droga não lhe deixava mais sociável nem bonita. Ao contrário, despertava outros fantasmas. Seres cheios de si, que culpavam o mundo pela dor que sentia e, sem remorso algum,  exigiam do universo que matassem a sede que lhe secava o corpo.

 

Depois as lembranças, as histórias foram sumindo. Só restou repetição. A revolta, as companhias sem rosto, o desprezo das outras mulheres e o medo dos homens que não perdoavam o jeito como vinha, exigia ser aceita e amada. Assim, com a mesma truculência com que achava que fora tratada....

 

E tinha também os roubos. Pequenos e grandes. Materiais e espirituais. Mas isso pouco importava. Ninguém leva o que rouba. Ao contrário do lucro, um ladrão terá sempre um prejuízo, sabia disso.

 

Mas uma coisa ainda lhe importava: o outro. Esse ente distinto capaz de nos tornar inteiros. Queria recolher os pedaços de si mesma... Mas para isso ainda teria que descobrir como ser leve. Tirar da alma o egoísmo que só lhe permitia ver sua dor e prazer...

 

Passou mais uma vez a mão sobre a cicatriz do olho e se percebeu incrivelmente tranqüila. Talvez, se o sangue - que é a parte material da alma - já andava escorrendo por aí, que sabe não era ela, a própria alma, dando sinais de que estava, finalmente, se libertando?

    



Escrito por Camerino às 18h21
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