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Camerino Eloy Neto
 

A carta

 

 

Já se passara quase um ano e ele continuava como uma mocinha casadoira: esperando na janela. O mais inusitado de tudo é que seguia acreditando que ela cumpriria a promessa e  sua espera não era em vão. Lembrava nitidamente daquela noite regada a excessos e solidões acompanhadas. De repente era como se estivessem voltado no tempo. O cenário bem que podia ser uma taverna européia do século XIX, cheia de pretensos poetas, álcool, absinto e ópio - única droga que foi motivo declarado para uma guerra.

 

E o encontro com ela tinha sido um embate de verdade. Adentrou sua casa como um furacão. Jovem, bonita, inteligente, sedutora. Se olharam e se reconheceram. Eram da mesma tribo: a dos apaixonados. Quando a noite foi chegando ao fim para os outros, restaram os dois e seus mundos tão distintos e, por isso mesmo, tão próximos.  Ele, senhor do seu talento, quis mostrar o que o encantava. Ela, fascinada por ele, rebateu falando das armas que havia recebido do universo para deixar sua marca no mundo. Estava decretada uma competição velada.

 

Os estados alterados da percepção. A loucura e seus fantasmas. O prazer. As nossas verdades mais profundas; aquelas que não temos coragem de confessar, nem pra nós mesmos. Decididamente eram feitos da mesma essência. A dos que se lançam. Ela tinha o viço e a crueza da juventude que ele conhecia tão bem.  As fortes cores da alma devastada pelas substancias químicas. A beleza diluída, a violência aflorada. Foi neste momento, segundos antes de cairem no abismo da incomunicabilidade, que  ela prometeu a ele uma... carta.

 

Uma carta para mostrar a verdadeira alma.

 

 

Como no tempo dos arautos era necessária uma certa pompa. Não se desnuda a alma de ninguém assim, ao primeiro encontro. É preciso investimento e um pouco de delicadeza também. Numa missiva, escrita a próprio punho. Era assim que aquele encontro seria explicado. Por isso ela saiu sem pedir desculpas das suas constantes demonstrações de arrogância. Atravessou a porta.  Nas mãos, um pedaço de papel com o endereço para onde enviaria a carta. Nenhum outro tipo de comunicação nem tecnologia cabia naquele momento.

 

E foi assim que ele ficou. Como encantado, casadoiro, esperando na janela... Talvez um pombo-correio, ou uma garrafa do além mar,  viesse explicar os encontros da vida.

 

 



Escrito por Camerino às 15h52
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