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Camerino Eloy Neto
 

Sozinha

 

Como se fizesse parte de um ritual macabro abriu o caixão e quis tocar no filho morto. Era como se fosse necessário esse contato físico, táctil, visceral pra entender o que estava acontecendo e se conformar.  Acariciou o rosto, as mãos, os pés...

 

Repetiu, instintivamente, o que fizera quando o teve nos braços pela primeira vez. A enfermeira entregou enrolado, mas ela examinou todo o corpo do bebê. Queria ter certeza de que trouxera ao mundo um ser humano completo, perfeito, cheio de possibilidades de realizações...

 

Ao contrário da primeira vez, quando ainda trazia o calor do sangue da vida que se iniciava, estava gelado e sem cor. Um calafrio lhe percorreu a espinha...

 

 

 

Nem o semblante tranqüilo dele, a despeito da morte trágica e antinatural que tivera, a deixava mais confortada. Ele não trazia nenhum sinal visível da violência da qual fora vítima. Talvez, o universo estivesse mandando uma mensagem cifrada para aquela mãe de que o filho estava em paz. Não havia ali nenhum sinal de terror, dor, incompreensão...

 

Mas ela não entendia “mensagens cifradas”. Não de quem não fosse sua cria. Acreditava que a maternidade dava poder, exclusivamente, sobre as vidas que trazia ao mundo.  Naqueles casos, bastava olhar para entender o que não era dito.  Para ela, toda  mãe recebia  o dom sobre-humano  de poupar seus filhos  das dores do mundo...

 

No entanto, sobre aquele caixão,  os seus super poderes haviam se esvaído. Ela havia se esvaído. Nem forças para gritar ao mundo o que estava sentindo conseguia ter. Olhava aquela platéia patética, que fingia compartilhar da tormenta que se abatia em sua alma, e não tinha vontade de fazer nada. Não queria lamentos, consolos, orações...

 

Foi só no momento em que vieram fechar a urna funerária que percebeu que alguma coisa realmente definitiva tinha acontecido. Não, aquele não era o primeiro enterro que fazia. Já havia perdido muita gente... pais, irmãos, amigos, parentes, amores...

 

Mas foi naquele momento que um certeza desabou sobre seus ombros: agora estou sozinha...

 

Agora estou sozinha... caminhou no terreno cheio de falhas daquele cemitério de periferia tentando entender o que esta constatação realmente queria dizer. Numa atitude de quem, no desespero, espera se convencer de algo, repetiu pra si mesma:

 

Agora, estou sozinha.  

 

 

 



Escrito por Camerino às 12h34
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