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Camerino Eloy Neto
 

Vida Comum

 

É, definitivamente tinha um problema. Era o sétimo entregador que reclamava dos assédios do seu cliente mais ilustre. A situação já passava do nível folclórico para o insustentável. Tinha que tomar alguma providência. Mas qual? Deixar de atender o cliente, não podia. Falar com ele tão pouco. O cara era um pop star. Reconhecido, aclamado, adorado até. Além do mais, ali se portava exemplarmente. Era educado, gentil e, sejamos sinceros, cada vez que aparecia ou fazia referência à loja o movimento mais que dobrava.

 

Por outro lado, não podia expor seus funcionários àquelas situações. Até por que, como superior, tinha responsabilidades sobre eles. As queixas eram sempre as mesmas. Quando os rapazes chegavam na cobertura, ele estava bêbado, sem roupas e com uma mesa que mais parecia um altar em louvor a máxima: drogas, sexo e rock in rool. As ofertas eram generosas. Em busca de algum sexo, droga em grande variedade e quantidade e dinheiro também.

 

 

A princípio, o gerente pensou que era um fato isolado. Havia mandado entregadores jovens nas primeiras entregas. Mas depois ele selecionou os mais velhos, feios e desinteressantes.  O bizarro ritual de tentativa de sedução continuava. Chegou a conclusão de que não importava quem fosse, o assédio se daria exatamente da mesma forma. Agora nenhum funcionário queria ir fazer as entregas. Mesmo se nada acontecesse os outros ficavam zoando.

 

Pensou em que tipo de coisa poderia levar a uma pessoa que muitos consideravam um gênio, ele inclusive, se deixar levar assim pela falta de auto-estima. Acreditava que a arte tinha o poder purificador. Os grandes mestres deveriam ir ao inverno, afinal eram seres especiais, mas tinham que voltar de lá trazendo luz para a humanidade. Era essa a finalidade da arte.

 

 

Mas a convivência com o astro estava demonstrando que a produção atormentada era um reflexo de uma vida mais caótica ainda. Lembrou dos versos de amor do artista. Tinham beleza, mas eram extremamente solitários. Falavam de histórias que transcendiam a rotina sem cor que a vida comum tinha. Talvez, o pop star que se mostrava uma alma solitária, estivesse, ao repetir aquele ritual previsível e medíocre, tentando se livrar da sua dor. Que espécie de solidão tão devastadora era aquela?  Capaz de destruir uma alma tão iluminada...

 

O gerente respirou fundo se preparando para sair. Ansiava chegar em casa, encontrar a mulher e suas duas filhas. Deixaria para pensar no problema amanhã. Só desejava sentar no sofá, ver televisão e brincar com as meninas.  Naquele momento, agradeceu aos céus, ter nascido com talento e ambições medianas.

 

Nunca foi notável, mas sempre teve paz e gente a seu lado. Naquele momento descobriu que, mesmo sem nenhuma grande guerra interior, havia feito uma grande conquista. É, agora entendia melhor os versos “em carne viva” do poeta e torceu para que ele algum dia conseguisse o que tanto ansiava: uma vida comum...

 



Escrito por Camerino às 13h02
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