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Camerino Eloy Neto
 

Estava quase pronto para matar.

 

 

Estava quase pronto para matar. Aquela noite havia feito mais um teste. Apertei o pescoço dela deixando o ar faltar. Ela ficou quase imóvel na cama e eu... Eu não senti nada. Nem remorso, nem constrangimento, nem dor. Nada. Engraçado como as pessoas colocam valores na nossa cabeça e a gente fica escravo deles. Mas eu estava seguindo outro caminho. Foi o que sobrou pra mim. Os fantasmas da minha mãe, do meu tio e seus conselhos cheios de “boas intenções” estavam ficando para trás.

 

É bem verdade que em algumas viagens eles ainda apareciam. Mas o que antes me fazia chorar, agora me deixava anestesiado... Aliás, a dor era uma coisa que não me atormentava mais. Nem a minha, muito menos a dos outros. Com o tempo fui aprendendo a ficar imune a ela. Foi uma questão de sobrevivência. Um dia descobrir que minha carinha bonita, que às vezes causava sofrimento às pessoas, também poderia me fazer penar.   

 

Passei alguns maus bocados até entender que o antídoto estava no veneno e decidi usar o meu... Veneno. Se a natureza me dotou de beleza e inteligência, azar de quem cruzasse meu caminho. A razão me mostrou que as pessoas eram fracas e bastava usar um pouco de desfaçatez para tê-las na mão.

 

Usar a palavra e o gesto certos na hora exata. Pronto, você poder ter tudo de alguém. O corpo e a alma. Essa última não me interessava já há muito tempo. Nem o corpo também... Esses prazeres fugazes com o outro já eram. Agora, queria tirar tudo o que pudesse das pessoas e me divertir sozinho. Não tinha a ilusão de que poderia roubar uma pessoa para compartilhar com outra. Isso não é possível e eu não queria me enganar mais... o que tirasse de alguém seria para meu consumo próprio.

 

 

Lembro da primeira vez que roubei alguém. Usei o meu charme para tirar o celular de um cara. Naquela época quis acreditar que era para pagar minha dívida de pó. Realmente paguei. Mas ali percebi que nada do que minha mãe e meu tio me diziam havia acontecido. Acordei como sempre. As coisas estavam onde sempre estiveram e as pessoas seguiam fazendo tudo o que faziam todos os dias. À noite, saí e percebi que os olhares continuavam sendo de deslumbre e desejo. Ninguém me olhava com escárnio por ser um ladrão.

 

Nada havia mudado. Apenas tinha me tornado mais forte. Poderia usar aquela nova arma. Decidi fazer novamente e o que se seguiu foi o mesmo. Até que um dia reencontrei a minha primeira vítima e me senti tentado a ir além. Não podia correr o risco de me tornar um ladrão comum. Me aproximei para um novo golpe. Muito mais ousado e difícil. Teria que usar todo o meu poder de sedução e inteligência. Teria que convencer o idiota que o roubo foi uma atitude desesperada. Usaria a carência para explicar o roubo. Me prostraria pedindo perdão pelo erro e juraria que não estava fazendo mais.

 

Comecei o meu teatro com tons de melodrama. O cara ficou me olhando, a princípio sem acreditar muito na minha história. Tive que me esforçar ainda mais. Aos poucos ele foi cedendo. Disse que não tinha que perdoar nada. Eu é que deveria me perdoar e não fazer mais. Ri por dentro. Como as pessoas adoram se mostrar superiores... O babaca deve ter se achado o máximo dizendo aquilo. Queria ver se eu tivesse a cada da miséria... Ali descobri que com essa cara de classe média, o rostinho bonito e frases articuladas, poderia continuar minha vida de roubos. Talvez até com as mesmas vítimas.

 

 

Foi o que aconteceu. Agora tinha que fazer uma coisa nova... A gente nunca fica satisfeito com o que rouba, sempre que acaba um roubo já não se tem o que foi roubado. Foi aí que me veio à idéia de matar. Esse sim seria um golpe definitivo. Para saber se isso  me deixaria  algo, teria que experimentar. E estava disposto a fazê-lo.  



Escrito por Camerino às 13h34
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