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Camerino Eloy Neto
 

O SENHOR TEMPO

 

O que representa meio ano na vida de uma pessoa? Que tipo de mudanças podem  ocorrer nesse período? Quem detém os segredos da passagem de tempo? Perguntas exercem um grande fascínio. Principalmente pra mim que, depois de passada a adolescência, tenho me dedicado a desconstrução de certezas.

 

O tempo é senhor absoluto de todas as ações e reflexões. Ao seu bel prazer verdades absolutas, construídas, dia após dia, deixam de existir. Nós, humanos, experts em adaptação, somos obrigados a nos reconhecer em atos e pensamentos antes completamente incompatíveis com o que acreditávamos.

 

E quando as mudanças são extremas?

 

Um novo lugar, num novo ser. Às vezes, quase caímos nessa armadilha. Trocar, simplesmente, de geografia não transforma a vida. Os novos hábitos tendem a conviver pacientemente com os antigos. Aqueles que não nos agradam mais.   Novidades cheias de frescor e vigor não conseguem expulsá-los. Os  comportamentos e pensamentos com cheiro e gosto de naftalina permanecem.  Talvez, seja para nos dar pistas de como fomos um dia.

 

Há seis meses o bicho que me habita resolveu mudou de cidade. Ele deu forças para o resto de mim, que tem um “q” de acuado e é dado a sobressaltos existenciais, largar uma vida estabilizada em busca de mais luz. Os caminhos que ele, o bicho, havia percorrido pareciam ter se esgotado, amedrontando até ele, a fera. Era partir ou ficar para sempre. Parado, congelado, apodrecido.

 

O desconhecido e seus monstros. Sempre tive uma atitude suicida de me lançar sem nenhum tipo de proteção racional. Imaginava ter deixado pra trás família e amigos. Bobagem, as pessoas importantes vão nos proteger por toda a eternidade. Mesmo quando não sabem, quando estão fisicamente longe.

 

A caminhada trás outras notícias boas. A gente vai acrescentando à  vida, por onde anda, novos amigos e famílias que o universo nos vai dando. Nesses meses, ratificando minha história de vida, estive em situações limite. Mas não posso dizer que foram os dias mais difíceis ou importantes. Foram dias.  Algumas coisas já consigo identificar. A minha total incapacidade de ter qualquer controle sobre o tempo é uma delas.

 

O que importa é que amanhã, dizem os astrônomos, Marte vai estar o mais próximo da Terra em milhares de anos. Vamos poder ver o planeta vermelho, da guerra, da força, a olho nu. A lua, dos poetas, dos apaixonados, estará cheia. Eu, poeirinha do sistema solar, que sou, vou estar de olhos, alma e coração voltados para o céu.  

 



Escrito por Camerino às 18h17
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Aquela Manhã

      Ela acordou sem o costumeiro cansaço.

 

Ao se olhar no espelho, achou que as espinhas e manchas do rosto haviam diminuído. No banho, sentiu a água massageando seu corpo. O café preto e o pão com manteiga tinham um sabor bem mais agradável que de costume. O ônibus,  lotado como sempre, mas as pessoas estavam menos carrancudas.

 

Algumas até esboçavam um sorriso. Sorrisos que ela, sempre tão reservada, se pegou retribuindo. O trabalho era o rotineiro, mas as funções, normalmente repetidas com a precisão e a frieza de uma máquina, foram embaladas por uma canção que ela acreditava estar esquecida na infância.  O dia passou rápido e logo  estava de volta pra casa. E, incrível, estava tranqüila. Diria até ansiosa para isso.

 

Nem parecia que uma terceira jornada de funções estava por começar. A família notou uma certa felicidade e comentou. Comentários que não retrucou nem argumentou. E sempre tinha algo a dizer. Na maioria das vezes as palavras lhe saiam secas e ríspidas ainda que não quisesse. Com ela, os diálogos já nasciam mortos.

 

  Era uma pessoa sozinha, mesmo rodeada de gente. Mas naquele dia as pessoas estavam e, melhor ainda, demonstravam querer estar perto dela.  Fez suas tarefas domésticas e quando foi assistir televisão percebeu, pela janela, uma linda lua cheia. Nem precisava levantar da cadeira, era só levantar os olhos, pra testemunhar aquele espetáculo da natureza que sempre esteve ali.

 

Antes de dormir, suspirou. O ar abriu seus pulmões. Se sentia cheia, plena. Como se algum milagre – ao qual não tinha acesso – tivesse acontecido. Assim, silencioso e devastador. Fechou os olhos e prometeu para si mesma que no dia seguinte, acontecesse o que acontecesse, teria um dia igual aquele. Alguma coisa havia mudado. Alguma coisa mudou dentro dela.



Escrito por Camerino às 20h56
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Você é um anjo!

                    Você é um anjo!  – 

 A frase soava quase como um sacrilégio naquele ambiente.  Os dois conversavam numa mesa de botequim cheia de garrafas vazias, em plena luz do dia. O mais velho apresentava claros sinais de embriagues. Não era um porre comum. Era desses de quem tenta, desesperadamente, por toda vida, sorver a essência do universo. O mais novo, mesmo com a pouca idade – não devia ter mais do que dezoito anos – trazia marcas por todo o corpo. No rosto, nas mãos, nas pernas. Sinais extremos de inadequação com o próprio corpo. Talvez esse sentimento de não ter as ferramentas necessárias para sobreviver, de ter sempre muito mais perguntas do que certezas, os tivesse aproximado.

 

A conversa até poderia ser considerada apropriada em qualquer outro lugar. Mas ali, àquela hora, não. Eles discutiam a existência divina e suas mensagens, incompreensíveis para a maioria dos mortais, num cenário acostumado a testemunhar contratos corporais, a busca pelo sexo fácil. Um local acostumado  a excessos e desmandos, não a discussões filosóficas e, pior, de caráter sagrado. Eles não estavam preocupados com a forma. Vital para eles era  a essência. E estranhos, em instantes, se tornaram íntimos. Utilizavam dessa irmandade para trilhar, poucos passos que fossem, o caminho que mesmo sem ter escolhido acreditavam que os levaria de volta pra casa.

 

Entre goles de cerveja, confessaram que tinham certeza da existência divina e do amor incondicional d’Ele pela humanidade. Descobriram ainda que lançavam mão da única arma que conheciam para estar mais perto do divino: a oração.  Outra ferramenta, recém descoberta era a prática constante da caridade. Ajudar o outro era uma necessidade diária, como são os exercícios continuados para os atletas que querem se tornar vencedores. Nesse ponto, o mais velho questionou o mais novo.

 

- Dar esmolas a qualquer pessoa que pede? Só isso vai me fazer entender as mensagens de Deus? Não pode ser. É muito pouco. - É muito pouco, repetia. Ele, tão racional, sempre tão atento a tudo e a todos, ser salvo por um gesto simples, que não precisava de nenhuma teoria mais elaborada.

 

 - Não precisa pensar. Dê  o que tiver nas mãos e não tenha medo de ficar sem nada. A coisa mais maravilhosa do mundo é ouvir de alguém com aparência  miserável: que Deus lhe abençoe. -  Dizia o mais novo. Do alto da experiência de quem preferia se mutilar a ferir o próximo.  O mais velho nunca tinha visto marcar no corpo para atitudes que vem da alma. Era a primeira vez. Ele começava a acreditar naquilo como uma prova verdadeira da existência  de Deus. Estava diante de um anjo que, por algum motivo que ele desconhecia – e desconheceria para sempre – tinha escolhido descer ao inferno. 

 

E o mais novo – o mais velho já  o reconhecia como um sábio - continuava a falar de trevas e escuridão em confronto com a luz. - O nome de Lúcifer -  dizia -  é a junção de luz e fé. O inferno é nossa busca pessoal, para vencê-lo temos que concentrar nossas forças na luz e na fé. Não há outro caminho.

 

    - Você é um anjo! – o mais velho chorava como uma criança. Perdido, confuso, incrédulo.  Precisava ir ao banheiro. Naquele momento soube que poderia perder o mais novo de vista. Foi o que aconteceu. O mais velho procurou pistas do mais novo por algum tempo e procuraria por mais ainda. Perdeu-se em velhos caminhos. Também mutilou seu corpo. Nele, as marcas só permaneciam na alma. O corpo se restabelecia. Ele que acabara de presenciar um milagre, pediu aos céus, outro: apesar da estrada tortuosa por onde sua busca o levara queria ser salvo. Tinha fé, amava a luz e sabia a que exército queria pertencer.       



Escrito por Camerino às 09h27
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