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Camerino Eloy Neto
 





Então tá decidido - disse. 
O olhar dela, em instantes, passeou entre incredulidade e terror. Como se aquela frase fosse algo abominável,  uma bomba jogada do nada. Por um momento ele vacilou, pensou em voltar atrás, recomeçar uma “D.R”. Tentar explicar os motivos que o levaram aquela decisão. Mas lembrou das inúmeras outras vezes em que cedeu. E ficou triste, cansado... 

Você quem sabe... - era a resposta padrão. Aquela dos que não querem se comprometer e colocam o peso das decisões nos outros. 

E uma nuvem de desconforto se instalou no ambiente. O clima de estranhamento dos momentos em que íntimos se tornam desconhecidos.  Ela ainda tentou ensaiar algum diálogo com temas banais, como se chegar aquele ponto tivesse sido algo bastante tranquilo. Tipo: vida que segue....

Ele respondeu de forma mecânica. Lembrou que já havia visto aquele filme algumas vezes. Papinhos sem maiores comprometimentos, seguido de algumas risadas e depois a “reconciliação”. E a sujeira sendo jogada para baixo do tapete.

Sim, eu juntei todos os vacilos, as pisadas na bola, os silêncios onde se exigiam respostas sinceras - teve vontade de gritar - Não, não era pra fazer uma inquisição, um julgamento, um acerto de contas sem aviso prévio, sem direito de resposta...

Sim, eu deixei que você ultrapassasse todos os limites. Ou melhor: não te dei nenhum. Me anulei... Mas não - continuaria gritando, se tivesse forças - não é porque não tenha amor próprio. Não! O que tinha era amor... e esperança de que um dia você visse que eu estava esperando que as coisas ficassem claras, sem mentiras, sem jogos de poder....  e seguiríamos, a partir daquele momento, numa vida nova, real. 

Sim, eu ainda espero que você tente fazer alguma coisa por nós.  Acredito que aí dentro tem a pessoa que enxerguei... - nesse ponto começaria a  falar pausadamente - Não, não era uma fantasia romântica, era uma realidade que está aí e você ainda não descobriu... Mas não, não posso esperar, indefinidamente, esse nascimento de você mesma. 

Sim, eu tenho tempo pra te esperar. Mas não, esse tempo não é o meu, é o seu. Sim, você vai continuar fazendo parte da minha vida. Das lembranças e das coisas que poderíamos ter vivido. Não, não tenho mágoa... Talvez nutra uma certa melancolia, como as que mantinham ativos os poetas dos século XIX.

Sim, eu estou indo... Mas não, não foi uma decisão minha. Em última analise quem decidiu foi você.  Não, não  são só as atitudes que movem o mundo. Muitas vezes, a falta delas é que traça o “destino” das pessoas.  

A mim, só resta acatar o que foi “decidido”, sem maiores dramas. É respirar fundo e torcer para que as novas decisões venham como as ondas que quebram na areia. Serenas, belas, maleáveis... E não como um muro de concreto, que segrega, distancia... Não é esse o caminho das pessoas. O natural, ainda que a humanidade não se tenha dado conta, é seguirmos compartilhando, construindo, aprendendo juntos. Pelo menos é nisso que acredito...

Então tá decidido - disse. 














 



Escrito por Camerino às 12h27
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Entre mendigos e vampiros

 

 

 

- Como anda a sua relação com os mendigos e vampiros? 

                                                              ...............

Vampiros só entram nas casas onde foram convidados. Sempre acreditou na máxima propagada pelas histórias sobre os seres que não resistem à luz. Era uma apaixonado pela aura de mistério e sensualidade que envolviam a produção artística das lendas que mostravam o universo de imortalidade, conquistada à base do sangue humano.

Não raro, as narrativas eram recheadas de reflexões existencialistas. A solidão/maldição que durava a eternidade. A dúvida entre matar uma pessoa ou transformá-la em outro ente fadado a sobreviver às custas da vida do semelhante. A difícil escolha ética de quem está numa guerra.

Filosofias à parte, começou a perceber que esse fascínio, que começou no mundo das artes, começava a se materializar em várias situações. E, faminto de desvendar a alma humana como era, passou a fazer parte desse universo. No início, interessante, mas que descambavam para o terreno da dor. Afinal, o mundo dos que não querem a luz traz consequências. É sempre um pouco de vida que se esvai nos encontros com os vampiros.

Durante algum tempo ainda tentou encontrar um pouco de humanidade naquelas situações. Mas se o “homem é o lobo do homem”, quando esse, se transforma em vampiro, toma a decisão de sempre acabar na jugular da sua presa. Ainda que no início existisse o desejo, em alguns casos até que sincero, de alcançar a alma do outro.

O encontro de almas é um momento iluminado, com a presença de Deus. Esse encontro sucumbe ao primeiro sinal de egoísmo, inveja, desejo de ter o que não se trabalhou para ter. Sem a presença divina, vai-se a luz. O vampiro prospera e segue com mais uma vítima no seu currículo cheio de conquistas que só aumentam a sua fome e desespero.

Uma das características dos vampiros é a perda, pouco a pouco, da humanidade. É como se ele trocasse a capacidade de sentir e se relacionar, pela frieza do olhar distante. Se transforma num profundo conhecedor da alma humana, para dela tirar proveito. A força motora é sempre a que subtrai, nunca a que compartilha e acrescenta. 

Mas foi quando ele achou que havia desvendado o mundo dos vampiros que eles se apresentaram de uma forma ainda mais cruel. Disfarçados de mendigos. Aqueles outros seres que aprendemos a ter uma certo carinho, pois são, em último caso, uma possibilidade de estar com Deus. 

Aprendeu que a caridade plena é aquela em que se tira a própria roupa para doar àquele que necessita. “Quem dá ao pobre, empresta a Deus”, era outra máxima em que acreditava. Ou, dito de outro modo, o que se dá de coração na verdade não é nosso, não vai nos faltar, vai acrescentar. É a oportunidade de se tornar instrumento do sagrado. 

                                                          ......................

Por isso, quando ouviu aquela pergunta: Como anda sua relação com os mendigos e vampiros? Foi tomado por uma momento de não resposta. Um silêncio que tentava entender que tipo de indagação era aquela. Vampiros e mendigos colocados lado a lado...

E de repente, foi como se sua cabeça se tivesse aberto para uma coisa que estava ali, à sua frente, mas que, por motivos que a alma deve saber, nunca havia deixado chegar mais próximo. E ainda num momento de confusão mental disse que era muito difícil distinguir um do outro. 

 - Quando uma pessoa é vampiro ou mendigo, se a forma que se apresentavam era muito similar?

- Um não tem nada a ver com outro. O mendigo pede o que precisa. O vampiro tira tudo o quer. Uma relação pode começar como um encontro com um mendigo, que vai pedir, ter, agradecer e partir. Mas se deixarmos que o mendigo se transforme em vampiro, a primeira coisa que vai ter que sair é a presença de luz. Aí, o encontro com o divino, que a caridade exercita, já não existe mais - disse seu interlocutor, e continuou:

- O mendigo vira vampiro sempre que começa a nos sugar, mesmo se mostrando “indefeso”. Nosso desafio é tomar consciência das nossas relações e expulsar o “mendigo” ao primeiro indício que ele se tornou um vampiro.

                                                  ...............

Saiu daquele encontro um pouco ainda atordoado. Mas percebeu que havia conquistado mais um degrau na sua busca do entendimento da alma humana. E se lembrou do enigma da esfinge. “Decifra-me ou devoro-te”. Assim era o caminho da humanidade, uma eterna necessidade de decifrar-se para não correr o risco de se auto-devorar. 

 



Escrito por Camerino às 15h41
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Ausências


Foto: Andréa Rêgo Barros

 

E de repente o sol se foi, trazendo uma tarde cinza, triste. O natural, depois de um dia tão claro,  seria cair uma tempestade com todas as suas cores. Sobressaltos, trovões, raios, chuva torrencial... Mas não. O céu como que “apagou” e uma chuva, quase que piedosa, se estendeu pelo resto do dia.

Foram tempos tão iluminados, alegres, cheios de paz. Sem urgências, dúvidas, cobranças. Mas aí - não se sabe muito bem quando - as ausências começaram a surgir. No princípio, causavam um estrago avassalador - como se um membro tivesse sido arrancado do corpo sem nenhum aviso, cuidado, anestesia. Naquele período, entretanto, ainda era possível regenerar-se, quase curar-se. 

Nas primeiras ausências, a dor era para ter do volta o que havia se perdido.  Tentou-se, “entender as razões”, perdoar. Mas só quem já viveu uma ausência sabe que quando o “que é de vidro, quebra”, nunca mais se tem o original. Além dos remendos, que soltam aos olhos, há de se tomar mais cuidado para que novos acidentes não voltem a acontecer.

A cada ausência, o alarme soava mais alto. Dorido, impiedoso, assustador. Foi quando, na última ausência, a dor, dilacerante, se apresentou de uma forma totalmente nova, não menos cruel. Havia de se escolher entre ela, a dor, ou a vida. E foi como ter que morrer e mesmo assim, ser obrigado a continuar vivo. 

Por um longo período, o exercício foi negar o que de bom havia vivido. Torcer para que o ódio tomasse o lugar do amor, numa tentativa improvável de extinguir o bem para sobreviver às trevas. A persistência das ausências, ao contrário, se transformava numa unipresença. Ocupava todos os espaços  com suas cores, cheiros, sons, lembranças. 

Até que as sucessivas ausências, os remendos no mesmo vidro quebrado, a incontestável superioridade do amor sobre o ódio; foi como uma chuva piedosa, preparando o terra para que algo novo nascesse. 

E foi naquele dia, que começou luminoso e se transformou em cinza, que se pode avistar uma semente germinando. Era a natureza, com sua sabedoria cultivada na compaixão, quem mandava o recado: atenção! tem vida brotando. 

 



Escrito por Camerino às 12h53
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Novos Olhos

Foto: Andréa Rêgo Barros.

 

Abriu os olhos e enxergou o mundo de uma forma que nunca havia visto. Era um tempo claro, onde as nuvens, antes nebulosas e assustadoras, agora tinham formas, desenhos, significados... Mensagens de  um futuro melhor. De mares a serem navegados, planetas a serem habitados, corações a serem conquistados.


O trabalho não trazia mais o fardo pesado da obrigação. Antes, e acima de tudo, era um prazer, uma forma de retribuir ao universo o talento e a vocação recebidos.   

O corpo, ainda que mundano, a cada dia se curvava mais ao divino. A sabedoria, tranquila, minimizava os reflexos daninhos da esperteza. 

As pessoas se perdoavam,  tornando-se capazes de perdoar. A generosidade planava por sobre as dores, que, anestesiadas, cumpriam mais plenamente o seu destino: nos tornar seres melhores. O aprendizado vinha, não mais pela dor, mas só, e unicamente, pelo amor.
E esse, soberano, era construído e fortalecido a cada segundo. Nas gentilezas, nos silêncios, nas pausas. Mas também acontecia das formais mais improváveis, quase impossíveis, abrupto e definitivo, sem possibilitar rotas de fuga. 

Sem fôlego, fechou e esfregou os olhos não acreditando no que havia visto. Se recompôs e, lentamente, reabriu os olhos. E naquele momento percebeu, com todos os sentidos, que aquele mundo existia. Só estava esperando ser reconhecido em nós e no nosso reflexo: o outro. 






 



Escrito por Camerino às 20h53
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Ah, então isso  é que vocês chamam de amor? Agora começo a entender por que o vosso planeta é chamado de provas e expiações. Um lugar onde o principal sentimento pode levar à vida plena ou à morte absoluta, não é o que se pode chamar de cenário perfeito. Nós, na nossa galáxia, estamos estudando vocês já há bastante tempo, mas toda vez que entrava o que chamam de amor, todos os dados, números e tabelas não serviam para nada.

Então fui enviado nessa missão, com um corpo igual ao de vocês, tentar decifrar o que acontece quando as pessoas amam. Antes, mergulhei na alma dos poetas e artistas, esses que vocês dizem ser os mais apaixonados.  E aí já começou a confusão. Os humanos separam o que é amor e o que é paixão. Como se essa última, que move o mundo, fosse menos importante que o primeiro.

Tentei então me fixar só no que a maioria diz ser o amor. E mais uma vez me deparei com muitos tipos. Há o materno, o fraternal, o de amizade... Esses são considerados superiores, como se não tivessem a mesma carga de paixão do que se convencionou chamar de amor carnal. Mesmo sem ter a confirmação científica desse fato, dado os inúmeros casos em que os primeiros  se comportam tão apaixonadamente com o último, dei o recorte da minha investigação no amor entre duas pessoas.

Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com outras tantas formas de amar. E a cada uma delas vem acoplado uma série de convenções, pré-conceitos e “certezas”  que não só dificultava a minha pesquisa, como me deixava perplexo com a quantidade de dor  que pode estar ligada a um sentimento que, em tese, seria o de generosidade, abnegação, compaixão, sublimação.

O que vi, foram os personagens que já conhecia através  da literatura, com seus dramas mais cruéis,  desfilarem por meus olhos. E aí, não importava os valores culturais, religiosos, de classes, de sexo. Todos se perdiam entre dúvidas, certezas pessoais, razões. No final o que se via era seres se distanciando do que eles mesmo acreditavam ser o amor.

No vosso corpo humano, percebi como é difícil entender ou simplesmente lidar com o conceito de amor. Como seres tão suscetíveis aos sentidos podem conviver com o mais divino dos sentimentos?  Quando já estava prestes a concluir que a vivência do amor era incompatível com a essência terráquea, fui, com o corpo dos humanos, acometido por um sentimento que não cabia em mim.

Tão grande e intenso que o objeto amado se assustava com tamanha força e as milhares de   possibilidades que se abriam com ele. Caminhos que exigiam como passaporte o total desapego do ego. Justamente o ego, que nem mesmo eu, que propunha aquela viagem, conseguia deixar pra trás. O que vivi foi um total descompasso. Como numa montanha russa, alternei os momentos de total alegria e paz e de dor e caos. 

Cheguei à beira da loucura. Tentei de todas as formas, moldar meus atos, sentimentos. Numa busca desenfreada para ter, pra mim, a essência do outro. Dei ao outro, ou pelo menos assim acreditei, a minha própria essência. Mas nada disso adiantou. E quando percebi, estava  sozinho.

Eu e um caldeirão de emoções. A conclusão da minha vinda a Terra já estava quase pronta. Era impossível amar e ser feliz. Foi aí que algo, no meu coração humano, nasceu. Como uma fresta de sol no meio de um dia nublado. Uma certeza de que viver valia a pena. Mais que isso: era necessário.

Talvez exista  algum lugar no universo onde o amor seja pleno. Esse, sem cobranças, egoísmos, trapaças, tentativas de vilipêndios... Mas pra se chegar a ele, tem que se passar pela prova da aventura louca de se lançar. Só os humanos que se lançaram conseguiram chegar a algum lugar.

Nesse pódio, alguns - diria até que a grande maioria – chegavam com suas almas destroçadas. Mas como foram movidos com a pureza do coração, lá encontravam o acalanto pra todo o corpo. Foi assim que pude voltar para o meu planeta com o resultado das minhas investigações. Meus pares não acharam que a minha missão na terra tivesse alcançado êxito. Eu não trazia respostas, ao contrário, fui fisgado pelo bichinho da dúvida. Mas estava de alguma forma pleno e cheio de vontade de construir  caravelas e atravessar outros tantos mares do desconhecidos.



Escrito por Camerino às 20h32
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Entendimento

 

 

O espumante borbulhava no céu da boca. Aproveitava aquele prazer recém-descoberto calmamente. Estava feliz e principalmente em paz. Olhou o sol se preparando para se pôr. Um cenário perfeito, combinando com o que estava vivendo. Foi nesse instante que lembrou de uma frase ouvida ainda na adolescência e que quebrou aquele momento.

- Muito cuidado com os covardes, eles não perdoam nunca -  Mais de que um “conselho” aquilo parecia uma profecia, carregada do peso que a verdade, sem disfarces,  sempre costuma imprimir.

Deixou o espumante descer lentamente. Precisava deglutir aquelas palavras. Pensou que  estavam perdidas no passado. Mas não. Elas voltaram e com a mesma intensidade. Começou a revisitar  pessoas que haviam passado por sua vida. E  aí  o pensamento foi clarificando.

Reconheceu nas lembranças, em cada uma delas, um pouco da profecia. Fez um paralelo com outra frase que atualmente habitava sua mente: é preciso ter muita coragem para ser feliz. Tudo começou a fazer sentido.

O passado havia dado uma pista para o futuro. Ah, se pudéssemos decifrar as mensagens que o universo manda no momento em que elas chegam... Quanto sofrimento seria evitado.  Mas, de outro modo, quem nos garante que o crescimento viria assim, só por insights.

Provavelmente não. O caminho tem que ser percorrido, sempre. Se as pessoas não fossem ficando pela estrada, deixando o vazio da não explicação, talvez não estivesse agora tentando entender uma lição recebida no início da vida. O aprendizado correria o risco de também ficar em algum lugar, perdido.

Relembrou sua vida e percebeu que a felicidade que agora desfrutava foi conquistada com muita coragem.

Costumava se lançar... Bastava um brilho, por menor e mais distante que tivesse, para entrar no mar que costuma ser a vida, sem duvidar que havia encontrado a luz.   Foram alguns naufrágios é bem verdade.

Mas nunca perdeu a certeza de que a luz é muito maior que as trevas. E ia, oceano adentro. Para muitos aquele comportamento era "repetir os mesmos erros". Na verdade essa era  a única forma  que conhecia para continuar buscando.

Até que um dia as mesmas águas povoadas de piratas que  roubavam  almas; de  sereias com seu canto lindo que levava ao fundo;  lhe trouxeram a uma ilha de tranquilidade. E foi nela que num final de tarde entendeu o recado do passado.

“Muito cuidado com os covardes, eles não perdoam nunca e é preciso ter muita coragem para ser feliz”

 

 

 



Escrito por Camerino às 19h15
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A profecia


 

 

Fiz meu primeiro mapa astral nos jardins do Centro de Artes e Comunicação da UFPE com Bruno, um estudante de psicologia,  e lembro que fiquei revoltadíssimo com o resultado. Os astros mandavam me dizer que o “sucesso” viria com a maioridade, depois dos 40. “Mas como? Aí terei perdido os meus melhores anos”, esbravejei. “Mas quem disse que serão os seus melhores anos?”, respondeu Bruno, serenamente.

Taurino com ascendente em Áries (e olha que  nem imaginava – ainda bem – o que isso poderia significar), segui na busca desesperada, diria até truculenta, pela “realização plena” que, para mim, era assunto a ser resolvido o mais rapidamente.  Foi assim que passei a “juventude”.  Querendo apressar o tempo, alcançar o porvir. Acreditando que o amanhã é  quem traz “essa tal felicidade”.

Em 2011 ganhei “novos olhos”. E não é que comecei a ver o mundo de forma diferente?  Junto com a miopia física, acho que comecei a corrigir umas outras disfunções que atingiam a visão da alma. Certamente esse ano marca um tempo de entendimento. Sim, pois um touro com ascendente em áries não se contenta em simplesmente aceitar uma mudança, precisa problematizá-la e entendê-la.

Agora começo a “entender” a tradução da expressão:  viver um dia a cada dia. Essa foi a grande virada, o grande milagre.  Viver um dia a cada dia é ter a possibilidade de usufruir de cada momento, profundamente.  Cada conquista, cada realização, cada riso ... Também têm as frustrações, os estresses, as lágrimas. Mas – eureca!!!! – esses maus momentos fazem parte só de um dia.  Serão fantasmas que só irão nos atormentar, no máximo, por algumas horas menos iluminadas. Já a luz, vinda da compreensão e do entendimento, ultrapassa as fronteiras do tempo.

Por isso que passado os 40 - muito melhor que aos 20, 30 - agradeço ao universo por ter sempre me mandado as mensagens que precisava, mesmo sabendo que nem sempre (diria que a maioria das vezes) eu tinha o repertório apropriado para decifrá-las.  A dádiva de cultivar a gratidão – que faz mais bem a nós do que ao  ser que a desperta   em nós – é o que eu desejo para todo mundo.

Tenho certeza que em 2012 as mensagens serão entendidas com maior facilidade...

Maktub, “a carta” tem o endereço certo.

Muito obrigado!!! 

 

 



Escrito por Camerino às 11h50
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Tempo

- Abusei do direito de errar “feio e bastante” contigo. Tenho consciência disso... E os erros foram repetidos muitas vezes... - a voz, em tom confessional, saía com certa dificuldade.

- E o que você quer que eu faça com essa declaração? – perguntou depois de um silêncio.

- Que tente me entender... ou, ao menos, perdoar...

- Entender?!!! Todo mundo sempre tem alguma razão pra agir, não?... Perdoar?... O que vai significar o meu perdão?

- Que não está com raiva de mim...

- (riu antes de responder) E...?  Se não estiver? – riu outra vez.

- Você não está facilitando as coisas. Foi tão difícil conseguir convencer a nos vermos novamente...

- Pois é. Você insistiu tanto nesse encontro que esperava algo mais concreto. Essas suas conclusões estão meio fora de hora... Não estou querendo fazer você sentir mais ou menos culpa.

- Talvez esse seja o problema (interrompeu). Você nunca se comprometeu com nada. Sempre tão blasé... Tão acima do bem e do mal... Isso ia me desestruturando. Tudo bem, eu não sou uma pessoa fácil... não sei lidar com o sentimento... Uso de agressividade... Meto os pés pelas mãos... Mas se tem uma coisa que não se pode dizer é que não deixo claro o que quero.

- Sério?  Tem certeza disso?  – usou toda a ironia que podia – Isso é uma novidade pra mim. Tudo, sempre, pareceu tão confuso. Você dizia uma coisa e fazia outra.

- É esse jeito... Nunca soube lidar com você.

- Entendi. Você me chamou até aqui pra dizer que seus erros, na verdade, são meus. Ok, então está dito – foi levantando.

- Espera (falou segurando pelo braço). Não é nada disso...

- E o que é então?... O que quer ouvir de mim? (voltou a sentar). Esse é o “seu” problema. Você cria umas histórias e mergulha nelas, de cabeça, mas esquece do outro que, teoricamente, deveria fazer parte delas.

- Mas eu sempre quis compartilhar uma história contigo – o tom era quase de desespero.

- Para. Para de se enganar. Você criou uma história sua.  Eu sempre deixei bem claro o que queria e até onde podia ir. Você não ouviu por que não quis. Agora pague o preço pela sua prepotência disfarçada de autismo.

- Você está sendo muito cruel. Estou sofrendo... Não queira que nossa história terminasse assim... Na verdade, não acredito que a nossa história tenha acabado ainda....

- Olha ela aí mais uma vez. A certeza de que “a” verdade está com você. Não entendo a sua insistência em ter alguém.  Na verdade não precisa de ninguém.  Quer uma “coisa” que atenda a todos os seus desejos. É impressionante como não tem noção disso...

- Isso não é verdade. Estou o tempo todo me humilhando, pedindo pra você me dar uma chance...

- De provar que você está com a razão...(interrompeu novamente)

- É, acho que não foi uma boa ideia esse encontro. A mágoa é maior do que eu pensava.

- É tão difícil pra você aceitar que talvez não haja mágoa? Pensa que, quem sabe, eu só não sou aquela pessoa moldada por sua vontade. Vai ser tão menos doloroso admitir que o ser humano pode querer fazer suas próprias escolhas. Escolher onde, quando e até que ponto quer ir. Isso nunca terá a ver com o que “você” pré-determinou... Gosto de você, mas sou eu quem vai dizer o quanto e como isso vai acontecer. Amar não é questão de poder, saber quem tem o controle. Quando entender isso, quem sabe, a gente possa voltar a se encontrar...

- O que tenho medo é de ter perdido pra sempre a chance  de compartilhar contigo uma história...

- Bom, isso é mais uma das coisas sobre as quais você não terá o domínio nunca: o tempo... Se curvar a ele, talvez, seja um bom início de aprendizado – disse, levantou e saiu calmamente.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Camerino às 11h06
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A tartaruga e o céu

 

Não que não fosse uma máquina de fazer sexo, afinal, essa era a proposta. Mas era muito mais que isso. Era olhos e sorrisos. Principalmente sorrisos. Legítimos, honestos, felizes... Daqueles que só brotam no rosto de quem está tranquilo consigo e com o universo. Os olhos, serenos, não destoavam do sorriso. Ao contrário, lhes davam mais integridade. E olhava... muito... intensamente. Tamanho era o poder dessa combinação que poderia hipnotizar exércitos. Manter, ali, milhares de súditos apaixonados e servis.


Porém seu poder de fogo contemplava outras armas não menos poderosas. Havia as formas e as curvas. Dessas de se deixar perder completamente. Era a beleza além da beleza, o prazer além do prazer, a vida em sua quase plenitude. Quem desfrutava da sua companhia, vivia, na Terra, a certeza da existência do paraíso. Breves momentos que seriam levados por toda a eternidade. Lembranças que perdurariam além da vida. Como certos cheiros e sons que nos fazem felizes mesmo quando não identificamos, claramente, de onde vieram e o que significaram.


Não se sabe ao certo se tinha consciência da sua capacidade de “destruição”, já que não se tinha notícia de algum mal acontecido aos que estiveram por perto. Tampouco se, em algum momento, usava seus dotes, unicamente, para proveito próprio. Sabia-se, no entanto, da alegria que tinha em compartilhar o prazer. E o fazia com a pureza de uma criança que comete doces travessuras. Um ser que desconhecia as dificuldades e perigos para conseguir atingir a felicidade. E mesmo não tendo asas, como a tartaruga da fábula, queria participar das festas do céu.


Os que ainda encaravam o amor como medo, chegavam a dizer que, na verdade, tamanha felicidade e desprendimento escondiam uma maneira de se proteger de histórias mais verdadeiras. Teoria que para os que puderam estar, ainda que por apenas alguns momentos, com aquela espécie de anjo sem asas, não fazia o menor sentido. Afinal, com ele, estiveram no céu ainda que, em alguns casos tenham despencado de lá. Quando isso acontecia, tal qual na fábula da tartaruga, Deus se apiedava e lhes reconstruía o casco, mantendo a alma intacta.



 



Escrito por Camerino às 10h55
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Felicidade....

 

 

- Dar ao homem errado, ainda vá lá, mas beber no copo errado, jamais! – disse, levantando para pegar as tulipas para a cerveja, ainda com as borbulhas do espumante refrescando o céu da boca.  Era uma mulher bonita, charmosa, classuda.   Daquelas que nunca passam  desapercebidas.   Ela também nunca deixou que a vida passasse assim.

Voltou à mesa, agora com os corpos “certos”.  A noite estava só no começo, mas cada segundo desde que se conheceram tinham sido de uma intensidade tamanha que pareciam que estavam há séculos falando e descobrindo os mistérios da alma humana.

E para isso, o álcool, a princípio, era um excelente condutor. Então, não era uma queda trocar as taças pelas tulipas e o espumante pela cerveja. Ergueram um brinde ao encontro. Impensado, inusitado, mais não menos acertado. Pertenciam a mesma horda.

A definição para a tribo a qual pertenciam era exatamente essa. Indisciplinados, nômades, invasores que vagavam pelos quase sempre cinzentos caminhos dos que buscam a essência da alma. E continuaram bebendo, falando, ouvindo, se reconhecendo.

Ampliando o significado da palavra decência... Estavam, honesta e verdadeiramente, descendo a essência. Se aquele encontro teria desdobramentos era o que menos importava. O importante é a felicidade vivida! Ambos já haviam aprendido com uma velha canção de rock algo que dizia mais ou menos assim: nem sempre você conseguirá o que quer, mas se tentar, às vezes, talvez consiga o que precisa...

E eles, depois de muitas tentativas, a maioria equivocada, tinham finalmente encontrado o que precisavam. Ao menos naquele momento... E tinham certeza da sincera felicidade... Dessas que ocorrem em raríssimos momentos e que devem ser guardadas na alma por todas as vidas.

 



Escrito por Camerino às 18h31
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2011

Se eu entendesse de numerologia, certamente teria algo a dizer sobre a chegada de 2011. Mas o bom de você não ser especialista em um assunto é que pode especular sobre ele, sem maiores dramas. Então lá vai… O ano que se aproxima é repleto de significados. Vejam que ele  tem um algarimo (o 1) repetido que somado dá o mesmo valor do outro (2). Isso é muito sério. Tudo o que pensarmos, desejarmos, planejarmos acontecerá em dobro.

 
“É preciso estar atento e forte!” Perceber as mensagens – cifradas ou não - que o universo manda. Exercitar a compaixão, a bondade, a perseverança… Conosco e com os outros. Agradecer os milagres diários – principalmente os pequenos -, entender o  que significa ter prosperidade.


Eu aprendi só agora,  esse ano, com Margot. E foi uma das maiores descobertas da minha vida: ser próspero não é ter muito dinheiro, é ter o que se precisa para viver cada momento. Independente do saldo ca conta, do carro, da casa… Que  os “bens” estejam lá no momento em que nós precisemos. O universo arranjará um modo para que isso acontceça. Pode ser numa liquidação, num convite de um amigo, num novo projeto…

Que em 2011, esse ano que dobra tudo, cada vez mais a gente coloque em prática o agradecimento. Mas tome cuidado, pois quanto maior a luz, maior a sombra. Não podemos evitá-la, mas, com certeza, podemos olhá-la com novos olhos. E enxergar nela não os contornos do medo, mas as definições da esperança.


Um ano novo cheio de novíssimos hábitos. Com amor, paz, trabalho, arte, consciência ambiental, projetos governamentais voltados para o coletivo, dinheiro, sexo… alegria...!

Beijos e… MUITO OBRIGADO!!!



Escrito por Camerino às 16h24
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Foi o brilho das pedras falsas do mosaico que trouxe a clareza. O colorido, a beleza, a fragmentação. Lembrou das coincidências, das repetições que viveu até ali. O manto de fumaça que lhe tomou os olhos nos últimos anos começava a se esvair.

 

Chegou festejando a conquista. Mais que isso, lutou e deixou tudo para trás em busca daquele lugar: Shangri-la,  Eldorado, paraíso na terra. O cenário perfeito.

 

Não se poupou de nada. Mergulhou a alma, em tudo quanto possível, sem perceber os sinais. Esqueceu que os demônios são o outro lado dos anjos. Conviveu com os dois sem  se dare conta que a mesma essência pode se desdobrar e tomar feições que não raro podem ser incompatíveis.

 

Tentou se erguer. A cabeça doía. O corpo também. Vacilou e voltou a sentar. Alguém veio ao seu auxílio. Um vulto saído do colorido do mosaico.    

 

- Vamos. Te levo até a porta – disse o seu salvador.

 

Não tinha certeza se queria ir embora. Não agora, quando as coisas começavam a fazer sentido. Mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, o seu acompanhante já o havia conduzido. Largou seu braço e se virou.

 

- Desculpa – bulbuciou – Como é seu nome?

 

- Mateus – respondeu, fechando a porta.

 

Mateus, mais um nome bíblico. Ultimamente só cruzava com pessoas que tinham nomes “divinos”. Mateus, o cobrador de impostos que se transformou num dos  apóstolos evangelistas. Aquilo tinha que ter algum significado. Afinal veio até aqui a procura do céu.

 

- Esse é um lugar para se expiar as nossa culpas – escultou, certa vez. Tinha o hábito de ouvir trechos das conversas alheias. Era uma forma de partilhar de outras vivências.

 

Aquela frase ficou ecoando na sua mente. “Esse é um lugar para se expiar culpas”...

 

Mas aquele era um dos cenários mais bonitos, ou melhor, era o mais lindo que conheceu.

 

De onde se tem a melhor vista do paraíso?... Do inferno...

 

Então, talvez fosse isso... Para se alcançar o céu, é preciso viver o seu armagendom pessoal. O encontro com Deus. Independente do local escolhido. 

 



Escrito por Camerino às 12h34
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Encontro e partida

 

 

 

O fim chegou com a madrugada. Numa noite em que a chuva de verão tornou a cidade mais angustiada e cheia de urgências individuais, deixando um rastro devastador que legitimava o egoísmo levado ao extremo.

Quando ele veio, a encontrou sozinha num leito de hospital. Um cenário que ela conhecia há muito.  Não se sabe, exatamente, como estava quando se foi: se tranquila ou apreensiva, revoltada ou conformada, triste ou feliz.

Pouco se sabia dela, mas mesmo aqueles que não a conheceram ficaram abalados. Falava-se que esteve com a dor desde muito cedo. A saúde sempre foi frágil. Aos treze anos, uma doença degenerativa veio lhe fazer companhia. Um destino que a marcou de forma definitiva.

Mas não se tinha notícia de momento algum em que houvesse amaldiçoado os céus por isso. Muito pelo contrário. Sabia-se da serenidade e do amor com que vivia. Nunca teve um namorado, talvez até fosse virgem. Mesmo assim, não há relatos de amargura no convívio com o outro.

Quando tudo aconteceu, o televisor do seu quarto estava ligado. Minutos antes do fim, a programação mostrava o depoimento de um rapaz marcado, assim como ela. Era uma mensagem de superação, cheia de emoção e sentimento, que tocou as pessoas naquela noite de tempestade.

Ele, que além da dor física, foi vítima da crueldade da qual  só o ser humano é capaz, afirmou, no horário nobre da tv aberta em rede nacional, que acreditava no amor e esperava ser conduzido vida a fora por esse que é o maior dos sentimentos.

Ninguém nunca poderá saber se ela ouviu o recado.  Mas aqueles que acreditam em fadas e na unicidade do universo têm certeza: era pra ela que ele falava.

Assim, não seria um despropósito imaginar que no minuto final, ela tenha esboçado um sorriso. De felicidade, esperança e certeza.

Não, definitivamente, não passou a vida em brancas nuvens.

 



Escrito por Camerino às 16h42
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Quando eu era pequeno, lá em Irará, o século XXI era um lugar longe, inimaginável... quase inatingível. E olha só, daqui a alguns dias entramos no último ano da primeira década do século.

 

Me peguei fazendo essa contagem de tempo e descobri que muito dos sonhos do menino do interior da Bahia ainda permanecem vivos.

 

Sim, quero continuar acreditando nas coisas do coração a despeito de todos os cuidados ditados pela experiência e racionalidade.

 

Apesar das anunciadas mudanças climáticas e suas terríveis consequências para o planeta. Da fraqueza dos que detêm o poder comprometendo, seriamente, a vida das outras pessoas. Das pequenas maldades diárias cometidas com ou sem intenção...

 

Afinal a natureza, ainda que ameaçada, segue nos proporcionando espetáculos de pura beleza. Os milagres acontecem independente das crenças. A vida se reinventa todas as manhãs...

 

Aproveite o calendário, esvazie a alma e receba 2010 com as retinas de uma criança. Cheias de curiosidade, sonhos, esperança  e urgência de viver o novo plenamente.



Escrito por Camerino às 21h54
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Estações

 

Vagava dias a fio nas estações a espera do grande milagre. Seu vulto se esgueirava em busca dos lugares mais ermos onde deparava com outros seres que padeciam da mesma dor que ele. Eram encontros fortuitos, sem palavras, desconcertantes.

 

Às vezes até surgia uma certa empatia, mas não lhes era permitido maiores envolvimentos. Não ali, não naquela situação. Na verdade, aqueles breves instantes serviam apenas para que uns sugassem energia dos outros. Sem trocas. O sentimento que a maioria deles nutria pelos semelhantes era de desprezo, beirando o nojo.

 

Ele sabia, e sentia, isso. Mesmo assim, continuava sua odisséia. Reconhecia que em alguns momentos o milagre esteve prestes a acontecer. Nessas ocasiões vislumbrara anjos de asas quebradas. Mas eles estavam sendo possuídos por outros que já haviam caído. Esses últimos estavam sempre naqueles locais, a postos. E não gostavam muito dele.

 

O recorrente viver sem pares o fez acreditar, vez em quando, que o milagre jamais viria. Ele então se lançava, sem medo algum, em busca do mais amargo fim. Mas esse também não vinha, fazendo-o desesperar: será que estava fadado a viver, eternamente, sem uma história completa?

 

Por isso, quando o que restara de sua alma estava mais branda, se deixava levar. Gostava da sensação, ainda que falsa, de participar da vida das pessoas. Fantasiava que estava indo junto com os colegas para o trabalho e participava, ainda que silenciosamente, da conversa deles sobre folgas e desentendimentos com o chefe.

 

Também tinham as famílias – pais e mães levando suas crianças. Ali, imaginava os almoços de domingo, cheios, barulhentos... felizes. Os casais de namorados eram um capítulo á parte. Os acompanhava para além dos olhos, chegando quase a perseguição. Se inquietava com os atrasos, se alegrava ao presenciar os encontros e se angustiava com as brigas e separações.

 

Assim se arrastava pelos vagões. Hora após hora, dia após dia... Inventando uma vida que não tinha, se alimentando do sentimento dos outros. Mentindo compartilhar com a humanidade a solidão que sua condição impunha. Esperando o grande milagre da transcendência.

 

 



Escrito por Camerino às 18h22
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