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Camerino Eloy Neto
 

Encontro e partida

 

 

 

O fim chegou com a madrugada. Numa noite em que a chuva de verão tornou a cidade mais angustiada e cheia de urgências individuais, deixando um rastro devastador que legitimava o egoísmo levado ao extremo.

Quando ele veio, a encontrou sozinha num leito de hospital. Um cenário que ela conhecia há muito.  Não se sabe, exatamente, como estava quando se foi: se tranquila ou apreensiva, revoltada ou conformada, triste ou feliz.

Pouco se sabia dela, mas mesmo aqueles que não a conheceram ficaram abalados. Falava-se que esteve com a dor desde muito cedo. A saúde sempre foi frágil. Aos treze anos, uma doença degenerativa veio lhe fazer companhia. Um destino que a marcou de forma definitiva.

Mas não se tinha notícia de momento algum em que houvesse amaldiçoado os céus por isso. Muito pelo contrário. Sabia-se da serenidade e do amor com que vivia. Nunca teve um namorado, talvez até fosse virgem. Mesmo assim, não há relatos de amargura no convívio com o outro.

Quando tudo aconteceu, o televisor do seu quarto estava ligado. Minutos antes do fim, a programação mostrava o depoimento de um rapaz marcado, assim como ela. Era uma mensagem de superação, cheia de emoção e sentimento, que tocou as pessoas naquela noite de tempestade.

Ele, que além da dor física, foi vítima da crueldade da qual  só o ser humano é capaz, afirmou, no horário nobre da tv aberta em rede nacional, que acreditava no amor e esperava ser conduzido vida a fora por esse que é o maior dos sentimentos.

Ninguém nunca poderá saber se ela ouviu o recado.  Mas aqueles que acreditam em fadas e na unicidade do universo têm certeza: era pra ela que ele falava.

Assim, não seria um despropósito imaginar que no minuto final, ela tenha esboçado um sorriso. De felicidade, esperança e certeza.

Não, definitivamente, não passou a vida em brancas nuvens.

 



Escrito por Camerino às 16h42
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Quando eu era pequeno, lá em Irará, o século XXI era um lugar longe, inimaginável... quase inatingível. E olha só, daqui a alguns dias entramos no último ano da primeira década do século.

 

Me peguei fazendo essa contagem de tempo e descobri que muito dos sonhos do menino do interior da Bahia ainda permanecem vivos.

 

Sim, quero continuar acreditando nas coisas do coração a despeito de todos os cuidados ditados pela experiência e racionalidade.

 

Apesar das anunciadas mudanças climáticas e suas terríveis consequências para o planeta. Da fraqueza dos que detêm o poder comprometendo, seriamente, a vida das outras pessoas. Das pequenas maldades diárias cometidas com ou sem intenção...

 

Afinal a natureza, ainda que ameaçada, segue nos proporcionando espetáculos de pura beleza. Os milagres acontecem independente das crenças. A vida se reinventa todas as manhãs...

 

Aproveite o calendário, esvazie a alma e receba 2010 com as retinas de uma criança. Cheias de curiosidade, sonhos, esperança  e urgência de viver o novo plenamente.



Escrito por Camerino às 21h54
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Estações

 

Vagava dias a fio nas estações a espera do grande milagre. Seu vulto se esgueirava em busca dos lugares mais ermos onde deparava com outros seres que padeciam da mesma dor que ele. Eram encontros fortuitos, sem palavras, desconcertantes.

 

Às vezes até surgia uma certa empatia, mas não lhes era permitido maiores envolvimentos. Não ali, não naquela situação. Na verdade, aqueles breves instantes serviam apenas para que uns sugassem energia dos outros. Sem trocas. O sentimento que a maioria deles nutria pelos semelhantes era de desprezo, beirando o nojo.

 

Ele sabia, e sentia, isso. Mesmo assim, continuava sua odisséia. Reconhecia que em alguns momentos o milagre esteve prestes a acontecer. Nessas ocasiões vislumbrara anjos de asas quebradas. Mas eles estavam sendo possuídos por outros que já haviam caído. Esses últimos estavam sempre naqueles locais, a postos. E não gostavam muito dele.

 

O recorrente viver sem pares o fez acreditar, vez em quando, que o milagre jamais viria. Ele então se lançava, sem medo algum, em busca do mais amargo fim. Mas esse também não vinha, fazendo-o desesperar: será que estava fadado a viver, eternamente, sem uma história completa?

 

Por isso, quando o que restara de sua alma estava mais branda, se deixava levar. Gostava da sensação, ainda que falsa, de participar da vida das pessoas. Fantasiava que estava indo junto com os colegas para o trabalho e participava, ainda que silenciosamente, da conversa deles sobre folgas e desentendimentos com o chefe.

 

Também tinham as famílias – pais e mães levando suas crianças. Ali, imaginava os almoços de domingo, cheios, barulhentos... felizes. Os casais de namorados eram um capítulo á parte. Os acompanhava para além dos olhos, chegando quase a perseguição. Se inquietava com os atrasos, se alegrava ao presenciar os encontros e se angustiava com as brigas e separações.

 

Assim se arrastava pelos vagões. Hora após hora, dia após dia... Inventando uma vida que não tinha, se alimentando do sentimento dos outros. Mentindo compartilhar com a humanidade a solidão que sua condição impunha. Esperando o grande milagre da transcendência.

 

 



Escrito por Camerino às 18h22
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Primavera

 

 

Nasceu numa manhã ensolarada de primavera. Era o presságio para uma vida repleta de beleza e força. E ela necessitaria. Afinal o mundo não está acostumado ao que foge das convenções. As estações devem ser definidas e aqueles que transgridem as regras estão fadados a enfrentar, vida afora, o terrível tribunal dos covardes. Eles não perdoam nunca.  

 

Mas o universo, como sempre faz, deu as armas capazes de garantir a vitória. E ela, desde cedo, aprendeu a usá-las. Um olhar mais desatento poderia até se deixar levar por essa imagem de poder que a bela e forte figura impunha. Era preciso uma mirada mais apurada para chegar, de fato, perto dela.

 

A leveza, o frescor, a delicadeza das flores. O calor dos verões capazes de transformar a alma. Essências que se completavam. E ainda havia o talento, a competência, a vocação para tirar da vida todo o aprendizado possível e ser um ser humano melhor e mais feliz.

 

Ela decidiu trilhar esse caminho. Ainda que não fosse o mais fácil a ser percorrido. Afinal, quanto mais luz, mas sombras. As assombrações se revelavam a cada minuto. De diferentes modos.

 

Havia a fraqueza, o medo, nossos pequenos e grandes delitos... Tinha também a maldade, a inveja, a falsa admiração que a cercava. Energias outras, que invadiam a  vida sem que estejamos atentos. Vinham enquanto dormíamos, sem vigília, sem arautos...

 

Vez em quando, ela se desesperava. Lágrimas deslizavam por sua pele macia no escuro. Silenciosas, solitárias, nostálgicas. O comum, no entanto, era o sorriso sincero, aberto, generoso. A marca dos que trazem a vitória.

 

Dizem que quando ela nasceu, lá naquela manhã quente de primavera, querubins descalços estavam brincando em grandes jardins. O contato deles com as folhas e flores desencadeou um aroma que foi potencializado pelo calor. É esse cheiro, essas cores e essa luz que ela traz na alma. 



Escrito por Camerino às 15h35
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A primeira vez que morri, não compreendi direito.

E foi assim nas vezes seguintes. Sempre correndo para estar de volta à vida, sem "marcas" da morte.

Da última, me deixei abater. Cansado, mergulhei no buraco negro...

Pra minha surpresa, permaneci ali tranqüilo... em paz.

 

 

Foi então que descobri que a vida é cheia de mortes e nascimentos.

Talvez, por isso, goste do "espírito do Natal", com suas luzes e cores.

A despeito do consumismo, que para muitos é o único motivo para a "festa", celebrar a vida é sempre muito bom. E se isso trouxer alguma forma de reflexão, tanto melhor.

 

Então, um final de ano cheio de alegrias e que as mortes - tão necessárias - passem a ser um ensaio sereno para a descoberta da verdadeira existência. 



Escrito por Camerino às 15h32
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Recomeçar

 

                                                                 

 

Virou mais uma vez na cama, tentando abrir os olhos que pareciam pesar toneladas. No banheiro, pensou que o apartamento estava de acordo com seu estado de espírito. Traduzia “a longa noite escura” que se apoderara da sua alma. Foi na cozinha, enquanto jogava a comida que havia preparado para esperá-lo, que tentou novamente entender o que passara.

 

Engraçado como, de repente, as coisas podem mudar completamente. Uma palavra, uma frase e lá se ia vai toda uma história... Se conheciam há mais de dez anos. No entanto, naquele momento, se tornaram velhos desconhecidos. Um não diálogo e aquele gosto de guarda-chuva na boca, aquela dificuldade de engolir o vazio.

 

Estava cansada. Não queria pensar, entender, se zangar. Nada... O que estava sentido não podia ser chamado de dor ou tristeza... Lembrou de quanto havia esperado por aquele encontro. Arrumara a casa e o coração para ele. Cada detalhe foi pensado. As cores, os cheiros, os sabores... Sonhos que queria compartilhar.

 

Tudo foi ralo abaixo como os farelos da comida na lavagem da panela. Infelizmente na vida nem tudo pode voltar a ser limpo. Há resquícios  que grudam. Ainda tinha esperança de voltar a vê-lo e esclarecer aquele grande equívoco. Mas tinha também um medo que lhe cortava a espinha: algumas palavras ditas conseguem suplantar uma convivência de anos a fio.

 

Há coisas que quem viveu ao lado sequer pode pensar. Dizer então... Ninguém diz o que não pensou, pelo menos por um momento, e o peso do uma única frase dita pode ruir o que milhões de outras tantas demoraram a construir.    

 

Tentou vislumbrar um raio de sol por entre os prédios que lhe cobriam a paisagem. Talvez fosse melhor sair do apartamento. Ir ver o mar. Quem sabe o tempo bom enchesse os seus pulmões de ar e de vida nova, onde os fantasmas dessa existência só pudessem assombrá-la em pesadelos.

 

Assim, seria só abrir os olhos. E mesmo que eles estivessem molhados não deixaria sua visão turva e sombria...

 

                                                                       



Escrito por Camerino às 18h38
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Contas

"Vou fechar as contas (...) me ajoelhar, pedir perdão, depois (...) perdoar..." *

 

O que seria do mundo sem a música?  Provavelmente, as grandes cenas perderiam, e muito, não existissem as trilhas sonoras. E os sons estão presentes em todos os momentos, mesmo nos silêncios.

 

Como a época do natal, com todos os seus signos, nos obriga a fazer balanços e traçar novos planos (como se a cada amanhecer o universo não nos brindasse com infindáveis possibilidades de milagres, grandes e pequenos), queria desejar muitos acordes, silenciosos e melódicos, acompanhando todos os momentos das nossas vidas.

 

Que nossos corpos, almas e corações sejam tomados por milhares de ouvidos, para que possamos "escutar" e desfrutar de todos os sentidos. Um ano novo cheio de olhares, sabores, cheiros e contatos "musicais", transformando nossas existências num grande baile.  A orquestra está a postos, e quero continuar compartilhando o prazer de dançar.

 

* "A outra rota", Paralamas do Sucesso.

 


 

 

 



Escrito por Camerino às 14h18
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Princípes desencantados

 

 

- O mundo está cheio de príncipes desencantados – a conclusão veio acompanhada por outra, mais palpável: as cicatrizes, velhas conhecidas de sua alma, agora baixavam ao corpo também.

 

Passou mais uma vez a mão pelo olho. Não havia mais sangue, curativos ou inchaço. Só a marca e a dor. Parecia que a natureza havia cansado de protegê-la e dava-lhe um sinal. Para toda a vida...

 

Uma vida que não acumulava ainda duas décadas, mas que já trazia o cansaço conhecido apenas pelos centenários. Sabia o que a tornava tão velha. A seqüência de noites escuras pelas quais se embrenhara desde os 11 anos.

 

Muito cedo começou a desconhecer as histórias e fotos que falavam de uma menina meiga e feliz. Não sabia quando, onde nem por quem foi ferida mortalmente. Mas a tragédia se instalou nela muito cedo. E ela reagiu do jeito que soube...

 

Ao ser atingida por aquela dor sem explicação só restou-lhe atracar-se com ela e seguir em frente. Não importava o que estava no caminho: flores ou campos minados – na real, não distinguia muito bem a diferença entre os dois – tinha que avançar...

 

E avançou. Procurou, nas madrugadas, algum vestígio de leveza e companheirismo. Gostava, de verdade, dos seres que habitam a noite.  E para igualar-se a eles precisou dissolver a armadura que lhe inflava o peito. O solvente veio em forma de pílulas coloridas...

 

Nas primeiras vezes, bem lá no início quando tinha 11 anos, não importava a quantidade que tomava, lembrava de tudo que acontecia. Segundo a segundo. A droga não lhe deixava mais sociável nem bonita. Ao contrário, despertava outros fantasmas. Seres cheios de si, que culpavam o mundo pela dor que sentia e, sem remorso algum,  exigiam do universo que matassem a sede que lhe secava o corpo.

 

Depois as lembranças, as histórias foram sumindo. Só restou repetição. A revolta, as companhias sem rosto, o desprezo das outras mulheres e o medo dos homens que não perdoavam o jeito como vinha, exigia ser aceita e amada. Assim, com a mesma truculência com que achava que fora tratada....

 

E tinha também os roubos. Pequenos e grandes. Materiais e espirituais. Mas isso pouco importava. Ninguém leva o que rouba. Ao contrário do lucro, um ladrão terá sempre um prejuízo, sabia disso.

 

Mas uma coisa ainda lhe importava: o outro. Esse ente distinto capaz de nos tornar inteiros. Queria recolher os pedaços de si mesma... Mas para isso ainda teria que descobrir como ser leve. Tirar da alma o egoísmo que só lhe permitia ver sua dor e prazer...

 

Passou mais uma vez a mão sobre a cicatriz do olho e se percebeu incrivelmente tranqüila. Talvez, se o sangue - que é a parte material da alma - já andava escorrendo por aí, que sabe não era ela, a própria alma, dando sinais de que estava, finalmente, se libertando?

    



Escrito por Camerino às 18h21
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Caim, Abel e os crimes nossos de cada dia

 

 

 

A pergunta deixou o ar tão tenso que seria possível cortá-lo ao meio com um punhal. Não que a conversa até ali tivesse sido agradável, muito pelo contrário. Mas naquele momento, aquelas palavras, levaram o clima ao grau mais alto de tensão.

 

- Você faz isso com todo o mundo? – disse, mais afirmando do que perguntando realmente. Pior, aquilo era quase uma acusação, dessas que já condenam sem direito a qualquer defesa. 

 

Me senti acuado, assustado e perplexo. Não estava acostumado ao papel de algoz. Sempre levei a sério a máxima da canção de rock: me obrigue a morrer, mas não me peça pra matar. 

 

A acusação trazia ainda um tom de ameaça. Por entre dentes e nas entrelinhas, a pergunta deixava claro que o assunto não havia se encerrado. Outro confronto haveria de acontecer. Tinha que estar preparado para ele.

 

Caminhei por entre a multidão, sem enxergar nada nem ninguém. Estava demasiadamente envolvido com aquela questão. Pela primeira vez, alguém me acusou de causar dor propositadamente.

 

Já sabia que no universo vivem dois tipos de tribos. Os descendentes de Caim e os de Abel. Os que matam e os que morrem. Eu pertencia ao segundo grupo, tinha certeza. Mesmo sabendo que a “culpa” dos que se deixam assassinar não é menor do que a dos assassinos.

 

Mas o que se apresentava agora era a possibilidade de estar, também, no mundo dos mais cruéis. Aqueles que não se importam com a dor causada a outros. Os acometidos pela doença do egoísmo.

 

 

- Você faz isso com todo o mundo? – a pergunta afirmava uma total falta de preocupação com o próximo. Uma forma de viver que não estava acostumado e, até então, não reconhecia em mim.

 

Passaram algumas noites. O medo do novo confronto diminuiu. A análise de toda a situação ficou mais clara e pude descobrir uma outra faceta da minha alma.

 

- Você faz isso com todo mundo?

 

Não, só com algumas pessoas. Encontros aos quais me dedico quando estou demasiadamente sozinho e perdido, querendo aplacar minhas necessidades animais.  Aqueles que não lembramos na manhã seguinte. Que invariavelmente deixam prejuízos; de todos os tipos. E que agora, sei, causam estragos também. Vão além da minha mísera dor.

 

A questão, depois de descobrir que mesmo na torpeza há de existir humanidade é:

 

- Você, tem noção do que faz no mundo?

 



Escrito por Camerino às 12h32
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Sobre meninas e lobas

 

 

Moça bonita. Era assim que a chamavam desde menina. Mesmo com o passar do tempo, era esse o tratamento que continuam dando a ela. Não era para menos, as dores e dissabores sofridos através dos anos, não conseguiram tirar o viço da sua alma. 

 

Ao contrário, a ingenuidade preservada dava a ela um ar ainda mais juvenil. A crença no mundo e nas pessoas, que na maioria das vezes lhe trazia decepção, permanecia sendo seu maior trunfo.

 

A sincera felicidade da ignorância. Não era só o não saber da maldade do universo. Era a generosidade, a alegria das pequenas coisas, a disponibilidade para o prazer. Tudo isso se traduzia no brilho dos olhos e no sorriso.

 

E havia o choro. Também espontâneo. Lágrimas que brotavam sem escolher hora, lugar ou ocasião. Como o lamento dos inocentes, às vezes, duravam apenas até o próximo segundo. Quando alguém mais experiente os convencia de que não tinham tido a intenção de magoá-los ou desviava a atenção deles para outra coisa qualquer.

 

Era de se imaginar que tamanha ingenuidade tivesse um “q” de assexualidade. Qual o que? Ela transpirava sensualidade. A menina-loba encantava e provocava inveja. Ás vezes os dois sentimentos nasciam na mesma pessoa o que tornava o ataque ainda mais raivoso.

 

Mas ela não tinha noção, sem se importava com isso. Seguia enchendo o mundo de graça e de uma certa brejeirice.  A vida, não raro, tirava o chão dos seus pés, proporcionando alguns tropeços. Mas bastava alguém olhá-la e espontaneamente lá vinha aquela saudação: moça bonita...

 

Ela sorria, aceitava ajuda para se levantar e seguia.... sinceramente feliz.



Escrito por Camerino às 14h05
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Soco no estômago

 

 

 

 

A dor do soco no estômago ainda não havia indo embora quando começou a entender o acontecido. Estava envergonhado por ter se metido em mais uma confusão e procurava culpados para aquele desfecho. Foi quando o entendimento veio, aos poucos, tranquilamente...  Percebeu então: era  um ingênuo, um bobo mesmo.

 

Acreditara poder salvar o mundo. Agora, com o que havia aprendido, conseguiria qualquer coisa. Descer aos infernos... se tornar um herói. Se encheu de coragem, dessas que só a ignorância é capaz de fortalecer, e foi.  As primeiras investidas até que surtiram algum efeito, pensava ele. Pelo menos se não estava ganhando, perdendo também não estava.

 

E seguiu em sua cruzada. Como um Dom Quixote solitário, sem um fiel escudeiro – ainda que trapalhão, adentrou a noite escura. Sua missão: trazer de volta à luz seres que estavam exilados nas trevas. Sua arma: a certeza na força do amor. Munido por tamanha inocência, e, acrescentando a ela, uma certa arrogância dos que acreditam ter a verdade, foi.

 

Para se aproximar dos seus inimigos, compartilhou as armas deles. Afinal, tinha a bondade e todos os anjos a seu favor. Desprezou os avisos de perigo que se seguiram e desafiou o poder do mal. Na sua visão turvada, vislumbrou companheiros de batalha. Até que, um a um, eles foram mostrando a que exército pertenciam, numa seqüência frenética de golpes e escárnio. E veio o golpe final.

 

Um soco no estômago que tinha como alvo a alma. E ela estava muito ferida. A princípio, ele achou que havia sido traído, mais uma vez, pelo amor.  Só depois, com o tempo, percebeu. Invadiu um terreno que não era seu com propósitos pouco claros. O que buscava? Salvar o mundo ou ser aclamado por ele?

 

Ainda que a intenção seja a mais nobre, existem limites. Ser guerreiro é saber lutar. Aprender quando e onde parar. Respeitar as forças do universo, deixando que as batalhas aconteçam nas instâncias onde devem acontecer. A humildade é a maior das coragens. Forte é o homem que se deixa “abater”. Ou melhor dito: aquele que tem a compreensão de que na guerra e na vida, a medalha no busto no herói morto não traz benefícios a ninguém.  

 



Escrito por Camerino às 15h44
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A carta

 

 

Já se passara quase um ano e ele continuava como uma mocinha casadoira: esperando na janela. O mais inusitado de tudo é que seguia acreditando que ela cumpriria a promessa e  sua espera não era em vão. Lembrava nitidamente daquela noite regada a excessos e solidões acompanhadas. De repente era como se estivessem voltado no tempo. O cenário bem que podia ser uma taverna européia do século XIX, cheia de pretensos poetas, álcool, absinto e ópio - única droga que foi motivo declarado para uma guerra.

 

E o encontro com ela tinha sido um embate de verdade. Adentrou sua casa como um furacão. Jovem, bonita, inteligente, sedutora. Se olharam e se reconheceram. Eram da mesma tribo: a dos apaixonados. Quando a noite foi chegando ao fim para os outros, restaram os dois e seus mundos tão distintos e, por isso mesmo, tão próximos.  Ele, senhor do seu talento, quis mostrar o que o encantava. Ela, fascinada por ele, rebateu falando das armas que havia recebido do universo para deixar sua marca no mundo. Estava decretada uma competição velada.

 

Os estados alterados da percepção. A loucura e seus fantasmas. O prazer. As nossas verdades mais profundas; aquelas que não temos coragem de confessar, nem pra nós mesmos. Decididamente eram feitos da mesma essência. A dos que se lançam. Ela tinha o viço e a crueza da juventude que ele conhecia tão bem.  As fortes cores da alma devastada pelas substancias químicas. A beleza diluída, a violência aflorada. Foi neste momento, segundos antes de cairem no abismo da incomunicabilidade, que  ela prometeu a ele uma... carta.

 

Uma carta para mostrar a verdadeira alma.

 

 

Como no tempo dos arautos era necessária uma certa pompa. Não se desnuda a alma de ninguém assim, ao primeiro encontro. É preciso investimento e um pouco de delicadeza também. Numa missiva, escrita a próprio punho. Era assim que aquele encontro seria explicado. Por isso ela saiu sem pedir desculpas das suas constantes demonstrações de arrogância. Atravessou a porta.  Nas mãos, um pedaço de papel com o endereço para onde enviaria a carta. Nenhum outro tipo de comunicação nem tecnologia cabia naquele momento.

 

E foi assim que ele ficou. Como encantado, casadoiro, esperando na janela... Talvez um pombo-correio, ou uma garrafa do além mar,  viesse explicar os encontros da vida.

 

 



Escrito por Camerino às 15h52
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Foi ali, vendo aquela não imagem, que pensou nos vários eclipses pelos quais já havia passado. Momentos onde a ausência da luz trouxe a solidão que só as noites mais escuras podem revelar. Um calafrio lhe percorreu a espinha. Mesmo agora, ainda podia ser tomado por aquela dor.

 

Resolveu tirar os olhos do céu escuro e se deparou com o clarão vindo de um casal de adolescentes. Eles, ao contrário da grande maioria, não estavam nem um pouco interessados no fenômeno da natureza. Estavam na praia para namorar. E só.

 

Os dois jovens haviam criado um mundo à parte e sobressaiam no meio da multidão. Mesmo tentada a ficar se abastecendo daquela “energia”, resolveu olhar as outras pessoas. Todas estavam naquele lugar aparentemente com o mesmo objetivo: contemplar o raro momento onde a sombra é capaz de ofuscar a luz.

 

Viu pais explicando, com desenhos na terra, os mistérios do céu aos filhos. Também estavam ali, velhos, em idade e espírito, sugando a alma dos que conseguiam permanecer jovens. Eram os “vampiros multiplicando-se” com o black out como dizia a letra da canção de uma amiga. Contemplou várias demonstrações de afetos. Sinceros e comprados.

 

Um mar de gente em frente ao mar e suas imensidões de sentimentos. Queria poder desvendar pelo menos um pouco de cada uma daquelas vidas. Caminhava entre elas, tentando descobrir os segredos. Talvez a descoberta dos mistérios do outro o ajudasse a descobrir os seus próprios mistérios.

 

De repente, notou que as pessoas começavam a ir embora. Olhou para o casal de adolescentes. Eles continuavam num tempo e espaço diferentes do restante do mundo. Voltou os olhos pro céu. A lua havia vencido o embate com a sombra e já refletia toda a luz a que tinha direito.

 

Aquela imagem foi iluminando aos poucos, seu rosto, seu corpo, sua alma. Aliás, se sentia com a alma lavada. Tinha acabado de descobrir que, uma vez encontrando a luz, não havia sombra, por maior que parecesse ser, capaz de apaga-la. A transformação estava feita.  

 

 



Escrito por Camerino às 16h18
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Um quase amor

 

Primeiro foi a foto 3x4 achada por acaso nas minhas coisas. Depois a lembrança da música e do teu sorriso. Naquela noite tinha brigado com Deus. Estava triste e sozinha. Achava que algumas coisas pelas quais a gente passa na vida são desnecessárias e Ele podia nos poupar. Engraçado, eu coloquei na mão Dele aquele fim de noite. Confesso,  havia uma espécie de provocação naquela atitude. Queria me perder de mim. Foi assim que você entrou na minha vida.

 

Um desses encontros inesperados. Um pouco de papo e estávamos juntos. Lembro que alguns outros caras começaram a me cercar também. Mas já tinha companhia para aquela noite. Bebemos. Dançamos. Bebemos mais. Falamos pouco um do outro. Eu ainda estava magoada com o universo e você não me pareceu de muita conversa. Mas ficou ao meu lado.  E de repente me peguei feliz.

 

Você também estava. Agora lembro. Contente e tranqüilo. Tocou uma música, dessas açucaradas que os mais intelectuais detestam e  a multidão adora. Você cantou pra mim sorrindo. Lindo. Depois não consigo lembrar o que aconteceu. As lembranças me fogem e sinto que alguma coisa errada se passou. Acordei sozinha, pensando ter tido um sonho.

 

A cabeça me doía, não tinha vontade de trabalhar. Mas meu coração estava tranqüilo. Agradeci a Deus por isso. Foi aí que aconteceu. Encontrei sua foto. Não lembro de a ter recebido. Talvez, até,  eu é quem tenha te pedido, não sei. Mas quis acreditar que foi você quem deixou. Para eu nunca mais me esquecer do seu rosto.  Caso contrário ele ia  se perder nas minhas lembranças. Aquela fotografia era uma prova de que você, mesmo se fosse anjo, existia e precisava ficar comigo. Não lembro o teu nome, mas me sinto íntima de você. Como se te conhecesse há muito tempo.

 

Desde que encontrei a sua foto 3x4 tenho certeza de que o amor existe. Agora, mesmo que nunca mais te veja, você faz parte da minha vida. Como uma adolescente apaixonada, costumo beijar tua foto antes de sair. Tenho te procurado no meio da multidão. E preciso confessar uma outra coisa: comprei o cd com a “nossa música” e ouço sempre. Na verdade, agora, a certeza de ter vivido um quase amor me habita. E isso me preenche. Obrigada, meu amor.

 



Escrito por Camerino às 19h25
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Trevas

 

Seu tempo estava se esgotando. Precisava cometer a maldade do dia. A luz já havia chegado e nenhuma “razão” tinha aparecido. Rondou noite e madrugada escondido nas trevas a procura do momento certo. Mas nada.  Nenhum assalto, nenhuma briga nenhuma confusão que permitisse exercitar sua sede de destruição.

 

 

Nasceu com aquele ódio, aquela necessidade de acabar com a “perfeição” do mundo. Detestava cruzar a vida e perceber o equilíbrio com que o universo se mantinha. Quando se olhava no espelho  reconhecia a marca animalesca do mal. E gostava dela. Era o que o mantinha no poder.

 

A luz começava a doer em seu corpo. Os olhos já não tinham a nitidez das trevas. Precisava agir rápido. Foi quando viu as suas possíveis vítimas. Três otários que àquela hora “ousavam” entrar num bar de uma rua transversal ao point da boemia que foi “invadido” pelos bacanas.

 

Ali estava sua salvação. Mas tinha que agir rápido. Se aproximou do grupo. Dois gringos e um playboyzinho todo malhadão. Quando foi falar com os três o garotão veio ao seu encontro. Estava definido. Era com ele com quem iria “acertar as contas”. Perguntou se os três estavam atrás de um bagulho.

 

O playboy balbuciou alguma coisa. O mané tava bêbado, riu por dentro, e colocou em prática todo o ódio. Arrastou o cara pelo braço para uma outra rua enquanto percebia as poucas pessoas que estavam ali correrem dele. Viu que o comparsa se aproximava e resolveu começar o espetáculo da selvageria. Ao mesmo tempo em que levava o cara para um lugar mais esmo, o enchia de porrada.

 

O malhadão não conseguia revidar, nem apareceu ninguém do grupo dele para que a brincadeira ficasse melhor. Ficou com mais ódio ainda, que merda ia ser matar aquele cara de pancada, se ele não reagia... Foi aí que viu a garrafa.

 

Mais uma vez, riu por dentro. Não ia matar o mané.  Ia acabar com a vida dele, deixando ele vivo. Seria um golpe de mestre!!!!! Deixou o comparsa se divertir um pouco mais dando uns chutes no cara que já estava no chão, sangrando, e partiu para pegar a garrafa.

 

Foi tudo muito rápido. Mas ele saboreou cada instante. Quebrou a garrafa e se dirigiu ao playboyzinho que continuava sem esboçar reação. Olhou o rosto e pensou em quantas pessoas já haviam admirado aquela “criação divina” com contornos perfeitos. Estava a beira de dar uma gozada de tanta satisfação.

 

O corte tinha que ser perfeito. Destruir sem acabar. Marcar a carne e a alma. Abrir a possibilidade da revolta dos “bons”. Fazer com que as pessoas duvidassem da bondade e guarda divina. Plantar a semente do ódio na alma de muitas pessoas. Abriu o rosto do rapaz e correu certo de que aquele corte iria doer em muita gente.

 

Se sentiu virando o jogo, de goleada, aos quarenta e cinco do segundo tempo. Agora podia voltar às sombras. Certo de que havia vencido mais uma batalha. Viriam outras e a cada uma que ganhava, ficava mais forte.  

 



Escrito por Camerino às 13h59
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