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Camerino Eloy Neto
 

Alexina

 

 

Alexina

Ontem eu fui a apresentado a Alexina, uma mulher revolucionária! Ela, falando de armas, me desarmou completamente. Aos 86 anos, apareceu serena e com uma lucidez rara de se ver nesses tempos... Fui avisado de que aquele era apenas um recorte da vida de Alexina. Um olhar afetivo sobre um exílio político, geográfico ...nunca emocional.

Saiu da Zona da Mata pernambucana para conviver em igualdade de condições que homens poderosos que fazem parte dos livros de história da humanidade. Che, Fidel, Mao... Alexina. Uma mulher que por amor aos seus filhos, os levou para morar distante dela. Um ser humano  que em nome da igualdade e da paz decidiu pegar em armas.

O destino, soberano de todas as vidas, a livrou da parte mais sangrenta. Mas quem precisar ver seu semelhante - ainda que em campo oposto de batalha -  tombar para promover mudanças? A luta é diária. A vitória questionável.

Com Alexina aprendi que não há necessidade de armas de fogo quando a chama do amor a sua gente queima no peito. Aí, basta um cabo de vassoura na mão e um ideal na cabeça para lutar pelo que acreditamos.

Alexina me foi apresentada por Claudio Bezerra e Stella Maris Saldanha que transformaram em imagens as “Memórias de um Exílio”. Os diretores dizem que não fizeram um filme didático. Fizeram mais: nos proporcionaram uma aula de  história de vida. Nela, o conhecimento chega calmo e bonito como um fim de tarde chuvosa pelo Malecon. 

•    O documentário "Alexina: Memórias de um Exílio" (veja teaser oficial aqui) foi lançado ontem no  Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Percorrerá o circuito de festivais e será exibido pela TV Brasil.



Escrito por Camerino às 14h46
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Entendimento

 

 

O espumante borbulhava no céu da boca. Aproveitava aquele prazer recém-descoberto calmamente. Estava feliz e principalmente em paz. Olhou o sol se preparando para se pôr. Um cenário perfeito, combinando com o que estava vivendo. Foi nesse instante que lembrou de uma frase ouvida ainda na adolescência e que quebrou aquele momento.

- Muito cuidado com os covardes, eles não perdoam nunca -  Mais de que um “conselho” aquilo parecia uma profecia, carregada do peso que a verdade, sem disfarces,  sempre costuma imprimir.

Deixou o espumante descer lentamente. Precisava deglutir aquelas palavras. Pensou que  estavam perdidas no passado. Mas não. Elas voltaram e com a mesma intensidade. Começou a revisitar  pessoas que haviam passado por sua vida. E  aí  o pensamento foi clarificando.

Reconheceu nas lembranças, em cada uma delas, um pouco da profecia. Fez um paralelo com outra frase que atualmente habitava sua mente: é preciso ter muita coragem para ser feliz. Tudo começou a fazer sentido.

O passado havia dado uma pista para o futuro. Ah, se pudéssemos decifrar as mensagens que o universo manda no momento em que elas chegam... Quanto sofrimento seria evitado.  Mas, de outro modo, quem nos garante que o crescimento viria assim, só por insights.

Provavelmente não. O caminho tem que ser percorrido, sempre. Se as pessoas não fossem ficando pela estrada, deixando o vazio da não explicação, talvez não estivesse agora tentando entender uma lição recebida no início da vida. O aprendizado correria o risco de também ficar em algum lugar, perdido.

Relembrou sua vida e percebeu que a felicidade que agora desfrutava foi conquistada com muita coragem.

Costumava se lançar... Bastava um brilho, por menor e mais distante que tivesse, para entrar no mar que costuma ser a vida, sem duvidar que havia encontrado a luz.   Foram alguns naufrágios é bem verdade.

Mas nunca perdeu a certeza de que a luz é muito maior que as trevas. E ia, oceano adentro. Para muitos aquele comportamento era "repetir os mesmos erros". Na verdade essa era  a única forma  que conhecia para continuar buscando.

Até que um dia as mesmas águas povoadas de piratas que  roubavam  almas; de  sereias com seu canto lindo que levava ao fundo;  lhe trouxeram a uma ilha de tranquilidade. E foi nela que num final de tarde entendeu o recado do passado.

“Muito cuidado com os covardes, eles não perdoam nunca e é preciso ter muita coragem para ser feliz”

 

 

 



Escrito por Camerino às 19h15
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A profecia


 

 

Fiz meu primeiro mapa astral nos jardins do Centro de Artes e Comunicação da UFPE com Bruno, um estudante de psicologia,  e lembro que fiquei revoltadíssimo com o resultado. Os astros mandavam me dizer que o “sucesso” viria com a maioridade, depois dos 40. “Mas como? Aí terei perdido os meus melhores anos”, esbravejei. “Mas quem disse que serão os seus melhores anos?”, respondeu Bruno, serenamente.

Taurino com ascendente em Áries (e olha que  nem imaginava – ainda bem – o que isso poderia significar), segui na busca desesperada, diria até truculenta, pela “realização plena” que, para mim, era assunto a ser resolvido o mais rapidamente.  Foi assim que passei a “juventude”.  Querendo apressar o tempo, alcançar o porvir. Acreditando que o amanhã é  quem traz “essa tal felicidade”.

Em 2011 ganhei “novos olhos”. E não é que comecei a ver o mundo de forma diferente?  Junto com a miopia física, acho que comecei a corrigir umas outras disfunções que atingiam a visão da alma. Certamente esse ano marca um tempo de entendimento. Sim, pois um touro com ascendente em áries não se contenta em simplesmente aceitar uma mudança, precisa problematizá-la e entendê-la.

Agora começo a “entender” a tradução da expressão:  viver um dia a cada dia. Essa foi a grande virada, o grande milagre.  Viver um dia a cada dia é ter a possibilidade de usufruir de cada momento, profundamente.  Cada conquista, cada realização, cada riso ... Também têm as frustrações, os estresses, as lágrimas. Mas – eureca!!!! – esses maus momentos fazem parte só de um dia.  Serão fantasmas que só irão nos atormentar, no máximo, por algumas horas menos iluminadas. Já a luz, vinda da compreensão e do entendimento, ultrapassa as fronteiras do tempo.

Por isso que passado os 40 - muito melhor que aos 20, 30 - agradeço ao universo por ter sempre me mandado as mensagens que precisava, mesmo sabendo que nem sempre (diria que a maioria das vezes) eu tinha o repertório apropriado para decifrá-las.  A dádiva de cultivar a gratidão – que faz mais bem a nós do que ao  ser que a desperta   em nós – é o que eu desejo para todo mundo.

Tenho certeza que em 2012 as mensagens serão entendidas com maior facilidade...

Maktub, “a carta” tem o endereço certo.

Muito obrigado!!! 

 

 



Escrito por Camerino às 11h50
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Tempo

- Abusei do direito de errar “feio e bastante” contigo. Tenho consciência disso... E os erros foram repetidos muitas vezes... - a voz, em tom confessional, saía com certa dificuldade.

- E o que você quer que eu faça com essa declaração? – perguntou depois de um silêncio.

- Que tente me entender... ou, ao menos, perdoar...

- Entender?!!! Todo mundo sempre tem alguma razão pra agir, não?... Perdoar?... O que vai significar o meu perdão?

- Que não está com raiva de mim...

- (riu antes de responder) E...?  Se não estiver? – riu outra vez.

- Você não está facilitando as coisas. Foi tão difícil conseguir convencer a nos vermos novamente...

- Pois é. Você insistiu tanto nesse encontro que esperava algo mais concreto. Essas suas conclusões estão meio fora de hora... Não estou querendo fazer você sentir mais ou menos culpa.

- Talvez esse seja o problema (interrompeu). Você nunca se comprometeu com nada. Sempre tão blasé... Tão acima do bem e do mal... Isso ia me desestruturando. Tudo bem, eu não sou uma pessoa fácil... não sei lidar com o sentimento... Uso de agressividade... Meto os pés pelas mãos... Mas se tem uma coisa que não se pode dizer é que não deixo claro o que quero.

- Sério?  Tem certeza disso?  – usou toda a ironia que podia – Isso é uma novidade pra mim. Tudo, sempre, pareceu tão confuso. Você dizia uma coisa e fazia outra.

- É esse jeito... Nunca soube lidar com você.

- Entendi. Você me chamou até aqui pra dizer que seus erros, na verdade, são meus. Ok, então está dito – foi levantando.

- Espera (falou segurando pelo braço). Não é nada disso...

- E o que é então?... O que quer ouvir de mim? (voltou a sentar). Esse é o “seu” problema. Você cria umas histórias e mergulha nelas, de cabeça, mas esquece do outro que, teoricamente, deveria fazer parte delas.

- Mas eu sempre quis compartilhar uma história contigo – o tom era quase de desespero.

- Para. Para de se enganar. Você criou uma história sua.  Eu sempre deixei bem claro o que queria e até onde podia ir. Você não ouviu por que não quis. Agora pague o preço pela sua prepotência disfarçada de autismo.

- Você está sendo muito cruel. Estou sofrendo... Não queira que nossa história terminasse assim... Na verdade, não acredito que a nossa história tenha acabado ainda....

- Olha ela aí mais uma vez. A certeza de que “a” verdade está com você. Não entendo a sua insistência em ter alguém.  Na verdade não precisa de ninguém.  Quer uma “coisa” que atenda a todos os seus desejos. É impressionante como não tem noção disso...

- Isso não é verdade. Estou o tempo todo me humilhando, pedindo pra você me dar uma chance...

- De provar que você está com a razão...(interrompeu novamente)

- É, acho que não foi uma boa ideia esse encontro. A mágoa é maior do que eu pensava.

- É tão difícil pra você aceitar que talvez não haja mágoa? Pensa que, quem sabe, eu só não sou aquela pessoa moldada por sua vontade. Vai ser tão menos doloroso admitir que o ser humano pode querer fazer suas próprias escolhas. Escolher onde, quando e até que ponto quer ir. Isso nunca terá a ver com o que “você” pré-determinou... Gosto de você, mas sou eu quem vai dizer o quanto e como isso vai acontecer. Amar não é questão de poder, saber quem tem o controle. Quando entender isso, quem sabe, a gente possa voltar a se encontrar...

- O que tenho medo é de ter perdido pra sempre a chance  de compartilhar contigo uma história...

- Bom, isso é mais uma das coisas sobre as quais você não terá o domínio nunca: o tempo... Se curvar a ele, talvez, seja um bom início de aprendizado – disse, levantou e saiu calmamente.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Camerino às 11h06
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A tartaruga e o céu

 

Não que não fosse uma máquina de fazer sexo, afinal, essa era a proposta. Mas era muito mais que isso. Era olhos e sorrisos. Principalmente sorrisos. Legítimos, honestos, felizes... Daqueles que só brotam no rosto de quem está tranquilo consigo e com o universo. Os olhos, serenos, não destoavam do sorriso. Ao contrário, lhes davam mais integridade. E olhava... muito... intensamente. Tamanho era o poder dessa combinação que poderia hipnotizar exércitos. Manter, ali, milhares de súditos apaixonados e servis.


Porém seu poder de fogo contemplava outras armas não menos poderosas. Havia as formas e as curvas. Dessas de se deixar perder completamente. Era a beleza além da beleza, o prazer além do prazer, a vida em sua quase plenitude. Quem desfrutava da sua companhia, vivia, na Terra, a certeza da existência do paraíso. Breves momentos que seriam levados por toda a eternidade. Lembranças que perdurariam além da vida. Como certos cheiros e sons que nos fazem felizes mesmo quando não identificamos, claramente, de onde vieram e o que significaram.


Não se sabe ao certo se tinha consciência da sua capacidade de “destruição”, já que não se tinha notícia de algum mal acontecido aos que estiveram por perto. Tampouco se, em algum momento, usava seus dotes, unicamente, para proveito próprio. Sabia-se, no entanto, da alegria que tinha em compartilhar o prazer. E o fazia com a pureza de uma criança que comete doces travessuras. Um ser que desconhecia as dificuldades e perigos para conseguir atingir a felicidade. E mesmo não tendo asas, como a tartaruga da fábula, queria participar das festas do céu.


Os que ainda encaravam o amor como medo, chegavam a dizer que, na verdade, tamanha felicidade e desprendimento escondiam uma maneira de se proteger de histórias mais verdadeiras. Teoria que para os que puderam estar, ainda que por apenas alguns momentos, com aquela espécie de anjo sem asas, não fazia o menor sentido. Afinal, com ele, estiveram no céu ainda que, em alguns casos tenham despencado de lá. Quando isso acontecia, tal qual na fábula da tartaruga, Deus se apiedava e lhes reconstruía o casco, mantendo a alma intacta.



 



Escrito por Camerino às 10h55
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Felicidade....

 

 

- Dar ao homem errado, ainda vá lá, mas beber no copo errado, jamais! – disse, levantando para pegar as tulipas para a cerveja, ainda com as borbulhas do espumante refrescando o céu da boca.  Era uma mulher bonita, charmosa, classuda.   Daquelas que nunca passam  desapercebidas.   Ela também nunca deixou que a vida passasse assim.

Voltou à mesa, agora com os corpos “certos”.  A noite estava só no começo, mas cada segundo desde que se conheceram tinham sido de uma intensidade tamanha que pareciam que estavam há séculos falando e descobrindo os mistérios da alma humana.

E para isso, o álcool, a princípio, era um excelente condutor. Então, não era uma queda trocar as taças pelas tulipas e o espumante pela cerveja. Ergueram um brinde ao encontro. Impensado, inusitado, mais não menos acertado. Pertenciam a mesma horda.

A definição para a tribo a qual pertenciam era exatamente essa. Indisciplinados, nômades, invasores que vagavam pelos quase sempre cinzentos caminhos dos que buscam a essência da alma. E continuaram bebendo, falando, ouvindo, se reconhecendo.

Ampliando o significado da palavra decência... Estavam, honesta e verdadeiramente, descendo a essência. Se aquele encontro teria desdobramentos era o que menos importava. O importante é a felicidade vivida! Ambos já haviam aprendido com uma velha canção de rock algo que dizia mais ou menos assim: nem sempre você conseguirá o que quer, mas se tentar, às vezes, talvez consiga o que precisa...

E eles, depois de muitas tentativas, a maioria equivocada, tinham finalmente encontrado o que precisavam. Ao menos naquele momento... E tinham certeza da sincera felicidade... Dessas que ocorrem em raríssimos momentos e que devem ser guardadas na alma por todas as vidas.

 



Escrito por Camerino às 18h31
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2011

Se eu entendesse de numerologia, certamente teria algo a dizer sobre a chegada de 2011. Mas o bom de você não ser especialista em um assunto é que pode especular sobre ele, sem maiores dramas. Então lá vai… O ano que se aproxima é repleto de significados. Vejam que ele  tem um algarimo (o 1) repetido que somado dá o mesmo valor do outro (2). Isso é muito sério. Tudo o que pensarmos, desejarmos, planejarmos acontecerá em dobro.

 
“É preciso estar atento e forte!” Perceber as mensagens – cifradas ou não - que o universo manda. Exercitar a compaixão, a bondade, a perseverança… Conosco e com os outros. Agradecer os milagres diários – principalmente os pequenos -, entender o  que significa ter prosperidade.


Eu aprendi só agora,  esse ano, com Margot. E foi uma das maiores descobertas da minha vida: ser próspero não é ter muito dinheiro, é ter o que se precisa para viver cada momento. Independente do saldo ca conta, do carro, da casa… Que  os “bens” estejam lá no momento em que nós precisemos. O universo arranjará um modo para que isso acontceça. Pode ser numa liquidação, num convite de um amigo, num novo projeto…

Que em 2011, esse ano que dobra tudo, cada vez mais a gente coloque em prática o agradecimento. Mas tome cuidado, pois quanto maior a luz, maior a sombra. Não podemos evitá-la, mas, com certeza, podemos olhá-la com novos olhos. E enxergar nela não os contornos do medo, mas as definições da esperança.


Um ano novo cheio de novíssimos hábitos. Com amor, paz, trabalho, arte, consciência ambiental, projetos governamentais voltados para o coletivo, dinheiro, sexo… alegria...!

Beijos e… MUITO OBRIGADO!!!



Escrito por Camerino às 16h24
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Foi o brilho das pedras falsas do mosaico que trouxe a clareza. O colorido, a beleza, a fragmentação. Lembrou das coincidências, das repetições que viveu até ali. O manto de fumaça que lhe tomou os olhos nos últimos anos começava a se esvair.

 

Chegou festejando a conquista. Mais que isso, lutou e deixou tudo para trás em busca daquele lugar: Shangri-la,  Eldorado, paraíso na terra. O cenário perfeito.

 

Não se poupou de nada. Mergulhou a alma, em tudo quanto possível, sem perceber os sinais. Esqueceu que os demônios são o outro lado dos anjos. Conviveu com os dois sem  se dare conta que a mesma essência pode se desdobrar e tomar feições que não raro podem ser incompatíveis.

 

Tentou se erguer. A cabeça doía. O corpo também. Vacilou e voltou a sentar. Alguém veio ao seu auxílio. Um vulto saído do colorido do mosaico.    

 

- Vamos. Te levo até a porta – disse o seu salvador.

 

Não tinha certeza se queria ir embora. Não agora, quando as coisas começavam a fazer sentido. Mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, o seu acompanhante já o havia conduzido. Largou seu braço e se virou.

 

- Desculpa – bulbuciou – Como é seu nome?

 

- Mateus – respondeu, fechando a porta.

 

Mateus, mais um nome bíblico. Ultimamente só cruzava com pessoas que tinham nomes “divinos”. Mateus, o cobrador de impostos que se transformou num dos  apóstolos evangelistas. Aquilo tinha que ter algum significado. Afinal veio até aqui a procura do céu.

 

- Esse é um lugar para se expiar as nossa culpas – escultou, certa vez. Tinha o hábito de ouvir trechos das conversas alheias. Era uma forma de partilhar de outras vivências.

 

Aquela frase ficou ecoando na sua mente. “Esse é um lugar para se expiar culpas”...

 

Mas aquele era um dos cenários mais bonitos, ou melhor, era o mais lindo que conheceu.

 

De onde se tem a melhor vista do paraíso?... Do inferno...

 

Então, talvez fosse isso... Para se alcançar o céu, é preciso viver o seu armagendom pessoal. O encontro com Deus. Independente do local escolhido. 

 



Escrito por Camerino às 12h34
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Encontro e partida

 

 

 

O fim chegou com a madrugada. Numa noite em que a chuva de verão tornou a cidade mais angustiada e cheia de urgências individuais, deixando um rastro devastador que legitimava o egoísmo levado ao extremo.

Quando ele veio, a encontrou sozinha num leito de hospital. Um cenário que ela conhecia há muito.  Não se sabe, exatamente, como estava quando se foi: se tranquila ou apreensiva, revoltada ou conformada, triste ou feliz.

Pouco se sabia dela, mas mesmo aqueles que não a conheceram ficaram abalados. Falava-se que esteve com a dor desde muito cedo. A saúde sempre foi frágil. Aos treze anos, uma doença degenerativa veio lhe fazer companhia. Um destino que a marcou de forma definitiva.

Mas não se tinha notícia de momento algum em que houvesse amaldiçoado os céus por isso. Muito pelo contrário. Sabia-se da serenidade e do amor com que vivia. Nunca teve um namorado, talvez até fosse virgem. Mesmo assim, não há relatos de amargura no convívio com o outro.

Quando tudo aconteceu, o televisor do seu quarto estava ligado. Minutos antes do fim, a programação mostrava o depoimento de um rapaz marcado, assim como ela. Era uma mensagem de superação, cheia de emoção e sentimento, que tocou as pessoas naquela noite de tempestade.

Ele, que além da dor física, foi vítima da crueldade da qual  só o ser humano é capaz, afirmou, no horário nobre da tv aberta em rede nacional, que acreditava no amor e esperava ser conduzido vida a fora por esse que é o maior dos sentimentos.

Ninguém nunca poderá saber se ela ouviu o recado.  Mas aqueles que acreditam em fadas e na unicidade do universo têm certeza: era pra ela que ele falava.

Assim, não seria um despropósito imaginar que no minuto final, ela tenha esboçado um sorriso. De felicidade, esperança e certeza.

Não, definitivamente, não passou a vida em brancas nuvens.

 



Escrito por Camerino às 16h42
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Quando eu era pequeno, lá em Irará, o século XXI era um lugar longe, inimaginável... quase inatingível. E olha só, daqui a alguns dias entramos no último ano da primeira década do século.

 

Me peguei fazendo essa contagem de tempo e descobri que muito dos sonhos do menino do interior da Bahia ainda permanecem vivos.

 

Sim, quero continuar acreditando nas coisas do coração a despeito de todos os cuidados ditados pela experiência e racionalidade.

 

Apesar das anunciadas mudanças climáticas e suas terríveis consequências para o planeta. Da fraqueza dos que detêm o poder comprometendo, seriamente, a vida das outras pessoas. Das pequenas maldades diárias cometidas com ou sem intenção...

 

Afinal a natureza, ainda que ameaçada, segue nos proporcionando espetáculos de pura beleza. Os milagres acontecem independente das crenças. A vida se reinventa todas as manhãs...

 

Aproveite o calendário, esvazie a alma e receba 2010 com as retinas de uma criança. Cheias de curiosidade, sonhos, esperança  e urgência de viver o novo plenamente.



Escrito por Camerino às 21h54
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Estações

 

Vagava dias a fio nas estações a espera do grande milagre. Seu vulto se esgueirava em busca dos lugares mais ermos onde deparava com outros seres que padeciam da mesma dor que ele. Eram encontros fortuitos, sem palavras, desconcertantes.

 

Às vezes até surgia uma certa empatia, mas não lhes era permitido maiores envolvimentos. Não ali, não naquela situação. Na verdade, aqueles breves instantes serviam apenas para que uns sugassem energia dos outros. Sem trocas. O sentimento que a maioria deles nutria pelos semelhantes era de desprezo, beirando o nojo.

 

Ele sabia, e sentia, isso. Mesmo assim, continuava sua odisséia. Reconhecia que em alguns momentos o milagre esteve prestes a acontecer. Nessas ocasiões vislumbrara anjos de asas quebradas. Mas eles estavam sendo possuídos por outros que já haviam caído. Esses últimos estavam sempre naqueles locais, a postos. E não gostavam muito dele.

 

O recorrente viver sem pares o fez acreditar, vez em quando, que o milagre jamais viria. Ele então se lançava, sem medo algum, em busca do mais amargo fim. Mas esse também não vinha, fazendo-o desesperar: será que estava fadado a viver, eternamente, sem uma história completa?

 

Por isso, quando o que restara de sua alma estava mais branda, se deixava levar. Gostava da sensação, ainda que falsa, de participar da vida das pessoas. Fantasiava que estava indo junto com os colegas para o trabalho e participava, ainda que silenciosamente, da conversa deles sobre folgas e desentendimentos com o chefe.

 

Também tinham as famílias – pais e mães levando suas crianças. Ali, imaginava os almoços de domingo, cheios, barulhentos... felizes. Os casais de namorados eram um capítulo á parte. Os acompanhava para além dos olhos, chegando quase a perseguição. Se inquietava com os atrasos, se alegrava ao presenciar os encontros e se angustiava com as brigas e separações.

 

Assim se arrastava pelos vagões. Hora após hora, dia após dia... Inventando uma vida que não tinha, se alimentando do sentimento dos outros. Mentindo compartilhar com a humanidade a solidão que sua condição impunha. Esperando o grande milagre da transcendência.

 

 



Escrito por Camerino às 18h22
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Primavera

 

 

Nasceu numa manhã ensolarada de primavera. Era o presságio para uma vida repleta de beleza e força. E ela necessitaria. Afinal o mundo não está acostumado ao que foge das convenções. As estações devem ser definidas e aqueles que transgridem as regras estão fadados a enfrentar, vida afora, o terrível tribunal dos covardes. Eles não perdoam nunca.  

 

Mas o universo, como sempre faz, deu as armas capazes de garantir a vitória. E ela, desde cedo, aprendeu a usá-las. Um olhar mais desatento poderia até se deixar levar por essa imagem de poder que a bela e forte figura impunha. Era preciso uma mirada mais apurada para chegar, de fato, perto dela.

 

A leveza, o frescor, a delicadeza das flores. O calor dos verões capazes de transformar a alma. Essências que se completavam. E ainda havia o talento, a competência, a vocação para tirar da vida todo o aprendizado possível e ser um ser humano melhor e mais feliz.

 

Ela decidiu trilhar esse caminho. Ainda que não fosse o mais fácil a ser percorrido. Afinal, quanto mais luz, mas sombras. As assombrações se revelavam a cada minuto. De diferentes modos.

 

Havia a fraqueza, o medo, nossos pequenos e grandes delitos... Tinha também a maldade, a inveja, a falsa admiração que a cercava. Energias outras, que invadiam a  vida sem que estejamos atentos. Vinham enquanto dormíamos, sem vigília, sem arautos...

 

Vez em quando, ela se desesperava. Lágrimas deslizavam por sua pele macia no escuro. Silenciosas, solitárias, nostálgicas. O comum, no entanto, era o sorriso sincero, aberto, generoso. A marca dos que trazem a vitória.

 

Dizem que quando ela nasceu, lá naquela manhã quente de primavera, querubins descalços estavam brincando em grandes jardins. O contato deles com as folhas e flores desencadeou um aroma que foi potencializado pelo calor. É esse cheiro, essas cores e essa luz que ela traz na alma. 



Escrito por Camerino às 15h35
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A primeira vez que morri, não compreendi direito.

E foi assim nas vezes seguintes. Sempre correndo para estar de volta à vida, sem "marcas" da morte.

Da última, me deixei abater. Cansado, mergulhei no buraco negro...

Pra minha surpresa, permaneci ali tranqüilo... em paz.

 

 

Foi então que descobri que a vida é cheia de mortes e nascimentos.

Talvez, por isso, goste do "espírito do Natal", com suas luzes e cores.

A despeito do consumismo, que para muitos é o único motivo para a "festa", celebrar a vida é sempre muito bom. E se isso trouxer alguma forma de reflexão, tanto melhor.

 

Então, um final de ano cheio de alegrias e que as mortes - tão necessárias - passem a ser um ensaio sereno para a descoberta da verdadeira existência. 



Escrito por Camerino às 15h32
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Recomeçar

 

                                                                 

 

Virou mais uma vez na cama, tentando abrir os olhos que pareciam pesar toneladas. No banheiro, pensou que o apartamento estava de acordo com seu estado de espírito. Traduzia “a longa noite escura” que se apoderara da sua alma. Foi na cozinha, enquanto jogava a comida que havia preparado para esperá-lo, que tentou novamente entender o que passara.

 

Engraçado como, de repente, as coisas podem mudar completamente. Uma palavra, uma frase e lá se ia vai toda uma história... Se conheciam há mais de dez anos. No entanto, naquele momento, se tornaram velhos desconhecidos. Um não diálogo e aquele gosto de guarda-chuva na boca, aquela dificuldade de engolir o vazio.

 

Estava cansada. Não queria pensar, entender, se zangar. Nada... O que estava sentido não podia ser chamado de dor ou tristeza... Lembrou de quanto havia esperado por aquele encontro. Arrumara a casa e o coração para ele. Cada detalhe foi pensado. As cores, os cheiros, os sabores... Sonhos que queria compartilhar.

 

Tudo foi ralo abaixo como os farelos da comida na lavagem da panela. Infelizmente na vida nem tudo pode voltar a ser limpo. Há resquícios  que grudam. Ainda tinha esperança de voltar a vê-lo e esclarecer aquele grande equívoco. Mas tinha também um medo que lhe cortava a espinha: algumas palavras ditas conseguem suplantar uma convivência de anos a fio.

 

Há coisas que quem viveu ao lado sequer pode pensar. Dizer então... Ninguém diz o que não pensou, pelo menos por um momento, e o peso do uma única frase dita pode ruir o que milhões de outras tantas demoraram a construir.    

 

Tentou vislumbrar um raio de sol por entre os prédios que lhe cobriam a paisagem. Talvez fosse melhor sair do apartamento. Ir ver o mar. Quem sabe o tempo bom enchesse os seus pulmões de ar e de vida nova, onde os fantasmas dessa existência só pudessem assombrá-la em pesadelos.

 

Assim, seria só abrir os olhos. E mesmo que eles estivessem molhados não deixaria sua visão turva e sombria...

 

                                                                       



Escrito por Camerino às 18h38
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Contas

"Vou fechar as contas (...) me ajoelhar, pedir perdão, depois (...) perdoar..." *

 

O que seria do mundo sem a música?  Provavelmente, as grandes cenas perderiam, e muito, não existissem as trilhas sonoras. E os sons estão presentes em todos os momentos, mesmo nos silêncios.

 

Como a época do natal, com todos os seus signos, nos obriga a fazer balanços e traçar novos planos (como se a cada amanhecer o universo não nos brindasse com infindáveis possibilidades de milagres, grandes e pequenos), queria desejar muitos acordes, silenciosos e melódicos, acompanhando todos os momentos das nossas vidas.

 

Que nossos corpos, almas e corações sejam tomados por milhares de ouvidos, para que possamos "escutar" e desfrutar de todos os sentidos. Um ano novo cheio de olhares, sabores, cheiros e contatos "musicais", transformando nossas existências num grande baile.  A orquestra está a postos, e quero continuar compartilhando o prazer de dançar.

 

* "A outra rota", Paralamas do Sucesso.

 


 

 

 



Escrito por Camerino às 14h18
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